História Viva


Clique e assine História Viva
Notícias

As revoluções do Elvis baiano

Documentário sobre a vida de Raul Seixas recupera riquíssimo material de arquivo e traça um retrato honesto de um dos artistas mais populares da história do país

Divulgação
O cantor com um visual à la Elvis Presley: o do rock clássico dos anos 50 com o ocultismo se tornaria marca registrada
por Pietro Henrique Delallibera

Raul Seixas é, sem sombra de dúvida, um dos artistas mais populares do país. A maioria dos brasileiros, independentemente de idade ou gosto musical, conhece pelo menos uma dezena de suas canções, e sua figura facilmente reconhecível – óculos escuros, barba, roupas com símbolos místicos – já se tornou parte do nosso repertório cultural coletivo.

Passadas mais de duas décadas desde sua morte, em agosto de 1989, já é possível avaliar a real importância do cantor para a música nacional? Seria difícil encontrar uma resposta precisa, mas o documentário Raul – O início, o fim e o meio, que estreia em março nos cinemas de todo o país, ajuda a esclarecer um pouco as coisas.

Dirigido por Walter Carvalho – conhecido do público por produções como Madame Satã, Carandiru e Cazuza, o filme acompanha a vida do “maluco beleza”, trazendo depoimentos de praticamente todos aqueles que influenciaram sua trajetória e recuperando uma quantidade impressionante de fotografias, gravações e filmagens de arquivo.

Por sorte, Raul não é tratado como um santo ou uma figura mística, equívoco tão comum a esse tipo de filme com cara de “biografia oficial”. O artista brilhante é justamente reverenciado, mas o abuso de drogas (que não teve nada de poético) e as mágoas de suas várias ex-companheiras também vêm à tona. Raul, felizmente, é representado como um ser humano.
Divulgação
Raul e o parceiro de composição Cláudio Roberto, com quem escreveu clássicos como Maluco beleza, Rock das aranhas e O dia em que a Terra parou
O filme traz também excelentes histórias, narradas por parentes e amigos íntimos. Em determinado ponto, Paulo Coelho conta ter escrito um enorme poema que serviria de letra para a música Al Capone. Raul leu o texto e disse que preferia algo menos rebuscado, mais “direto ao ponto”, ao que Paulo replicou: “Algo como ‘Ei, Al Capone, vê se te emenda?’”. “Isso mesmo, é por aí”, respondeu Raul.

Essa forma direta, marcada pela linguagem popular, talvez seja a chave para compreender um dos principais enigmas da carreira do cantor: como uma música subversiva, cheia de referências sofisticadas à religião, ao esoterismo e à filosofia, conseguiu se tornar tão popular? Ao contrário da MPB “oficial”, embalada pelo samba e pela bossa nova, o “iê iê iê realista” – termo cunhado pelo próprio Raul – conseguiu ser música engajada e, ao mesmo tempo, verdadeiramente “popular brasileira”.

Sua obra também misturou de forma inédita o rock com gêneros como o baião e o forró, uma união bem-sucedida que ficou registrada principalmente na faixa Let me sing. Além disso, Raul foi pioneiro em trazer temas do ocultismo para a música pop do país, apresentando canções e imagens inspiradas em autores como Aleister Crowley.

Mas, acima de tudo, a importância da trajetória de Raul Seixas fica evidente quando colocada em seu contexto histórico. O “maluco beleza” foi um expoente da geração que cresceu no pós-Segunda Guerra e tentou construir um mundo novo e radicalmente diferente daquele em que viveram seus pais. Numa época em que a indústria cultural americana já ganhava o mundo, esse baiano encontrou na música de Elvis Presley e na gola desajeitada da jaqueta de James Dean novos ícones. Um conflito geracional que Raul registrou brilhantemente, com sua simplicidade típica, na música Sapato 36: “Pai eu já tô crescidinho/ Pague pra ver, que eu aposto/ Vou escolher meu sapato/ E andar do jeito que gosto”.