Reportagem
edição 59 - Setembro 2008
A corrida pela bomba atômica
Nos bastidores da Segunda Guerra Mundial, físicos nucleares a serviço dos Aliados e dos nazistas travaram uma das maiores batalhas científicas da história: a busca pela arma definitiva
por François Kersaudy
© UNIVERSITY OF CHICAGO/AMERICAN INSTITUTE OF PHYSICS/SPL/LATINSTOCK
Enrico Fermi, um dos pais da bomba atômica americana, em seu laboratório na Universidade de Chicago
No início do século XX, a pesquisa atômica era uma aventura emocionante, cuja única finalidade era desvendar os grandes segredos da matéria. Essa nova ciência tinha seus templos e papas: Ernest Rutherford em Cambridge, Niels Bohr em Copenhague, Max Born e Jacob Franck em Göttingen, Marie Curie em Paris e Albert Einstein em Berlim. Seus discípulos constituíam uma espécie de fraternidade poliglota de jovens superdotados: os ingleses John Cockcroft e Ernest Walton; os russos Georgi Gamow e Piotr Kapitza; os alemães Carl Friedrich von Weiszäcker, Otto Hahn e Werner Heisenberg; os austríacos Fritz Houtermans e Lise Meitner; os americanos Linus Pauling e Robert Oppenheimer; os italianos Enrico Fermi e Emilio Segrè, os húngaros Leo Szilard, Edward Teller e Eugene Wigner e os franceses Irene Curie e Frédéric Joliot.

Os pesquisadores mais experientes e ilustres, como Marie Curie, Ernest Rutherford, Niels Bohr e Albert Einstein, haviam aberto o caminho no início do século com a descoberta da radioatividade do rádio, a descrição do núcleo do átomo e do elétron e, evidentemente, a teoria da relatividade. Seus discípulos dariam continuidade aos trabalhos: em 1932, o inglês James Chadwick comprovou a existência do nêutron. Dois anos depois, Frédéric e Irène Joliot-Curie geraram radioatividade artificial bombardeando átomos de alumínio com partículas alfa (ver glossário), enquanto o italiano Enrico Fermi utilizaria os nêutrons descobertos por Chadwick para bombardear o urânio, desencadeando assim uma emissão de energia. Em 1938, os alemães Otto Hahn e Fritz Strassman, com base na experiência de Fermi, provocariam a cisão do núcleo de urânio em duas partes, como conseqüência da emissão de nêutrons desacelerados. Caberia, enfim, à austríaca Lise Meitner e a seu sobrinho Otto Frisch medir a intensidade da energia assim emitida, e dar ao fenômeno um nome: a fissão.

Tudo isso só foi possível graças a uma colaboração exemplar entre os centros de pesquisa do mundo inteiro. Porém, a partir dos anos 30, essa cooperação internacional não conseguiria resistir ao nacional-socialismo. Na Alemanha de Hitler, a economia, a indústria e a pesquisa militarizaram-se progressivamente, isolando-se do mundo exterior.
DIVULGAÇÃO
Niels Bohr (à esq.) e Albert Einstein em 1925. Durante a guerra, os dois papas da física nuclear trabalharam para lados opostos: Einstein para os Aliados e Bohr para os nazistas
As relações com os pesquisadores estrangeiros foram definitivamente cortadas em 1939. Bem antes disso, porém, a pesquisa atômica alemã seria violentamente atingida pelas perseguições anti-semitas, que excluíram os judeus dos serviços públicos na Alemanha a partir de 1933. Inicialmente, o regime evitou perseguir os físicos mais renomados, mas as humilhações e as intimidações organizadas pelos militantes nazistas não os pouparam e, entre 1933 e 1939, os principais pesquisadores alemães partiram para o exílio: Albert Einstein, Max Born, Jacob Franck, Fritz Haber, Leo Szilard, Edward Teller, Eugene Wigner, Hans Bethe, John Von Neumann, Stanislaw Ulman, Lise Meitner, Klaus Fuchs, Otto Frisch, Rudolf Peierls e muitos outros.

A partir de 1938, o regime de Mussolini, imitando servilmente o de Hitler, promulgou suas próprias leis racistas. Como a esposa do maior físico italiano, Enrico Fermi, era judia, ele também emigrou e seus colegas do Grupo de Roma o seguiram.

Muitos desses emigrados foram para os Estados Unidos, pois o país possuía universidades e laboratórios muito bem equipados, permitindo que os cientistas continuassem seus trabalhos em boas condições. Além disso, Albert Einstein havia imigrado para lá em 1933, o que influenciou seus colegas. Assim, Teller, Wigner, Bethe, Franck, Szilard, Fermi, Segrè, Ulman e Von Neumann desembarcaram, um por um, no Novo Mundo.

Esses pesquisadores, no entanto, não deixaram de se interessar pelo que se passava no Velho Continente. Enquanto físicos nucleares compreenderam imediatamente as implicações da descoberta de Hahn e Strassmann: caso essa fissão que gerava uma grande quantidade de energia pudesse ser reproduzida várias vezes por meio de uma reação em cadeia, a tecnologia poderia permitir a fabricação de um potente artefato explosivo. Sendo judeus, sabiam que Hitler não deixaria de utilizar essa descoberta para aniquilar seus adversários.
HAHN-MEITNER-INSTITUT, BERLIM
A física austríaca Lise Meitner (à esq.) e o químico alemão Otto Hahn trabalhando juntos em Berlim nos anos 20
Em março de 1939 surgiu o primeiro indício de que as previsões dos físicos alemães estavam corretas. Ao ocupar a Tchecoslováquia, os nazistas interromperam as exportações de minério de urânio proveniente das minas de Joachimsthal. Até então, esse minério servia apenas para colorir o cristal da Boêmia e fabricar letreiros luminosos. A interrupção das exportações só poderia significar que a Alemanha pretendia utilizar o urânio exclusivamente para a pesquisa atômica.

Nessa época, Szilard e os físicos exilados nos Estados Unidos já estavam convencidos de que os alemães estavam construindo sua própria bomba. Diante disso, o pesquisador se convenceu de que “só nos restava uma coisa a fazer: desenvolvermos a nossa”. O plano, porém, esbarrava no orçamento limitado dos laboratórios nos quais trabalhavam esses refugiados. Era preciso fazer com que o governo americano se interessasse pelo assunto.

O contato entre os físicos e o governo dos Estados Unidos foi um refugiado judeu chamado Alexandre Sachs, que trabalhava como conselheiro econômico do presidente Franklin Roosevelt. Após uma reunião com Szilard no final de julho de 1939, Sachs decidiu preparar uma carta redigida a quatro mãos (por ele, Szilard, Teller e Einstein) que deveria ser entregue ao presidente Roosevelt. O objetivo era convencer as autoridades militares americanas a financiarem as pesquisas atômicas no país.

O documento foi assinado pelo próprio Albert Einstein e entregue a Roosevelt no dia 11 de outubro de 1939, cinco semanas depois do início da guerra na Europa. A carta informava sobre a possibilidade de desenvolver a bomba atômica e alertava sobre o suposto estado adiantado das pesquisas na Alemanha, pedindo, ao final, uma “ação rápida da parte dos poderes públicos”.
DEPARTAMENTO DE ENERGIA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
Uma das instalações do Projeto Manhattan, a usina de Oak Ridge era responsável pela separação isotópica do urânio 235. Ao lado dos laboratórios de Hanford e Los Alamos, formava o complexo construído para fabricar a bomba atômica nos Estados Unidos
Em resposta à carta, Roosevelt criou um comitê consultivo para o urânio que contaria com representantes do exército e da marinha – todos americanos – e teria Szilard, Fermi, Teller, Wigner e Sachs como membros associados. Seria concedida uma soma de 6 mil dólares para as pesquisas iniciais. Tudo isso era evidentemente simbólico e teria continuado assim se o destino não tivesse seguido por outros caminhos.

ALERTA VERMELHO Enquanto a comunidade de físicos exilados nos Estados Unidos pressionava Roosevelt, um grupo de cientistas também alertava o governo britânico. Em março de 1940, dois físicos nucleares exilados na Inglaterra, Otto Frisch e Rudolf Peierls, enviaram ao conselheiro científico do Ministério da Aviação britânico, sir Henry Tizard, um memorando no qual mencionavam, pela primeira vez, a possibilidade de construir uma super-bomba produzindo uma explosão equivalente a mil toneladas de dinamite.

Diante do alerta, os ingleses também criaram um comitê consultivo, o Maud Committee. Inicialmente céticos quanto à possibilidade de desenvolver a bomba atômica, os britânicos mudaram de opinião depois que os serviços de informação de Sua Majestade detectaram indícios do avanço das pesquisas alemãs: em agosto de 1939, Werner Heisenberg, aluno de Niels Bohr e Prêmio Nobel de Física, foi nomeado diretor do Instituto Kaiser Wilhelm de Berlim, o principal centro de pesquisas nucleares alemão. Ao mesmo tempo, o instituto foi requisitado pelo Hilfswaffenamt, o escritório de armas auxiliares nazista. Também se soube, na primavera de 1940, que agentes alemães haviam tentado comprar dos noruegueses toda sua produção de água pesada (ver glossário), que só poderia servir para a fabricação da bomba.

Em agosto de 1941, Winston Churchill finalmente deu sinal verde ao programa atômico inglês, que a partir de então recebeu o codinome de Tube Alloys. Contudo, a batalha do Atlântico estava no auge, e os meios materiais e financeiros continuavam insuficientes para concluir um projeto de tamanha envergadura.
© RUE DES ARCHIVES/RDA
O físico Robert Oppenheimer (à esq.) e o general Leslie Groves visitam uma área de testes atômicos no deserto do Novo México
A solução viria de um membro do Maud Committee, o professor Marcus Oliphant. Em visita aos Estados Unidos algumas semanas depois, esse físico australiano causou pânico nas altas esferas americanas ao assegurar que os alemães empregavam recursos consideráveis para obter uma reação em cadeia, e que a Inglaterra corria o risco de ser incinerada antes que seus próprios trabalhos pudessem frutificar. Disse-lhes que somente os Estados Unidos, com seus meios consideráveis e seu território a salvo da guerra, seriam capazes de ter êxito. Entre os ouvintes, estava o físico Vannevar Bush, diretor do Escritório de Pesquisa e Desenvolvimento Científico, que supervisionava o comitê consultivo para o urânio.

Bush enviou dois físicos americanos para se informarem do estado dos trabalhos na Grã-Bretanha, e, no dia 9 de outubro de 1941, ele explicou a situação ao presidente americano: “A vitória será de quem tiver a bomba primeiro”. Se fossem os nazistas, a Grã-Bretanha seria riscada do mapa e os Estados Unidos deveriam capitular antes mesmo de entrar na guerra. Desta vez, Roosevelt entendeu: era uma questão de vida ou morte. O presidente decidiu criar imediatamente o Top Policy Group, um comitê restrito composto por ele mesmo, o vice-presidente Henry Wallace, o ministro da Guerra, Henry Stimson, o chefe do estadomaior, George Marshall e os físicos Bush e James Bryant Conant. Nada de fazer economias: o programa gozaria de um fundo ilimitado. Dois dias depois, Roosevelt escrevia para Churchill propondo-lhe “uma ação conjunta”.

Nessa nova etapa das pesquisas, os cientistas americanos e imigrados, que até então desenvolviam suas pesquisas de modo isolado, deveriam coordenar seus trabalhos a fim de produzirem uma reação em cadeia controlada até julho de 1942.

No dia 20 de junho de 1942, Roosevelt e Churchill reuniram-se em Hyde Park, Nova York. Os relatórios dos cientistas indicavam que o princípio de uma reação em cadeia controlável estava definitivamente ao alcance dos pesquisadores. Os dois líderes, então, selaram um acordo segundo o qual as usinas de produção seriam construídas nos Estados Unidos e os ingleses instalariam um centro de pesquisas urânio-água pesada perto de Montreal.
NARA
A hora da verdade: os Aliados temiam que os nazistas respondessem ao desembarque na Normandia com um ataque nuclear
AMEAÇA CLARA Os Aliados corriam contra o relógio. Os serviços de informação britânicos haviam descoberto que as forças de ocupação alemãs na Noruega exigiam que a produção de água pesada do complexo hidrelétrico de Vemork, na região de Telemark, passasse de uma e meia para cinco toneladas por ano. A ameaça era clara e os Aliados decidiram destruir a usina de Vemork.

A primeira tentativa, realizada no final de 1942, foi um fracasso. Trinta e seis soldados ingleses foram capturados e executados pelos alemães e o plano de ataque a Vemork foi descoberto pela Gestapo, que encontrou mapas da região com um círculo vermelho em torno da usina junto de um dos cadáveres. O objetivo só seria alcançado em fevereiro de 1943, quando um grupo de seis agentes secretos do Serviço de Operações Especiais inglês na Noruega se infiltrou na usina e plantou uma série de explosivos que destruíram todos os aparelhos da instalação, além de meia tonelada de água pesada.

A notícia foi recebida com entusiasmo em Washington, cujas pesquisas atômicas vinham progredindo a passos largos. O programa agora era supervisionado pelo exército americano e fora batizado com um nome que entraria para a história: Projeto Manhattan. À frente da empreitada estava o general de brigada Leslie Groves, que convenceu os grandes industriais americanos a colaborar com o projeto antes mesmo de as pesquisas apresentarem resultados concretos.

Mas o produto de tamanho esforço científico não demoraria a aparecer. No dia 2 de dezembro de 1942, Enrico Fermi e sua equipe, em seu gigantesco laboratório instalado debaixo do estádio da universidade de Chicago, conseguiram pela primeira vez uma reação em cadeia controlada. O sucesso da experiência não surpreendeu Fermi, mas o efeito que produziu nas altas esferas políticas e militares foi considerável. No fim do mesmo mês, foi dado o sinal verde para a organização de três imensos centros de pesquisa e de produção: “X”, em Oak Ridge, no Tennessee, onde seriam construídas duas usinas de separação isotópica do urânio 235; “W”, em Hanford, no estado de Washington, onde seriam construídas as grandes pilhas de grafite produtoras de plutônio; e “Y”, em Los Alamos, no Novo México, o “campo de concentração dos Prêmios Nobel”, onde um milhão de cientistas trabalhariam no desenvolvimento da bomba em si, sob direção do jovem físico Robert Oppenheimer, que fora aluno de Ernest Rhuterford, Niels Bohr e Jacob Franck.
BIBLIOTECA DO CONGRESSO, WASHINGTON
Após meses de discussão, o governo americano decidiu lançar a bomba atômica sobre o Japão. Acima, o bombardeio de Nagasaki em 9 de agosto de 1945
Toda a operação era coberta por um véu de segredo tão espesso que os próprios cientistas – todos eles usavam pseudônimos – tinham dificuldades para se comunicar entre si. Suas famílias eram isoladas e os parlamentares e a maioria dos membros do governo americano eram mantidos na mais completa ignorância do que se estava tramando.

O clima de segredo absoluto chegou a tal ponto que, em janeiro de 1943, os americanos suspenderam o intercâmbio de informações com os britânicos. A decisão provocou a ira de Churchill e sete meses depois Roosevelt acabaria voltando atrás: o estado adiantado das pesquisas na Alemanha provocava novamente sérias preocupações.

Há algum tempo Hitler referia-se a terríveis armas secretas em seus discursos, e os aviões de reconhecimento aliados haviam detectado instalações equipadas com rampas de lançamento de foguetes na costa báltica e no norte da França. Mais grave ainda: descobriu-se, no começo do verão de 1943, que os alemães haviam reativado a usina de Vemork, que passara a produzir mais água pesada do que antes da sabotagem de fevereiro.

Tudo isso gerou uma onda de pânico em Londres e Washington. O próprio general Groves deduziu que Hitler estava muito próximo de fabricar a bomba e persuadiu os chefes militares americanos a bombardear novamente Vemork. Novo fracasso: as mil toneladas de bombas lançadas sobre a usina, em 16 de novembro de 1943, mataram 22 civis e causaram danos insignificantes à instalação.

O revés na Noruega aumentou a tensão entre os Aliados, e uma descoberta dos serviços secretos britânicos deixou americanos e ingleses ainda mais preocupados: na Copenhague ocupada pelos alemães, o dinamarquês Niels Bohr, Prêmio Nobel e amigo pessoal do rei Cristiano X, levava adiante suas pesquisas sobre a fissão nuclear auxiliado por pesquisadores judeus refugiados que acolhera em seu instituto. A Gestapo o deixava trabalhar em paz, ele tinha discípulos alemães, e físicos como Heisenberg ou Von Weiszäcker, que trabalhavam no programa nuclear alemão, vinham consultá-lo.
A pedido dos serviços secretos britânicos, seu eminente colega, sir James Chadwick conseguiu enviar-lhe um discreto recado para que interrompesse suas atividades na Dinamarca e as continuasse na Grã-Bretanha, mas Bohr recusou o convite, afirmando que seu dever era proteger a liberdade das instituições científicas e garantir a segurança dos cientistas exilados.

Perigosíssimos trabalhos seriam então levados adiante no instituto de pesquisa teórica de Copenhague. Os cientistas do Projeto Manhattan eram alunos do primário em comparação com Niels Bohr, e ninguém duvidava que esse professor dinamarquês seria capaz de dar aos alemães, de forma completamente involuntária, todos os elementos que ainda lhes faltavam para finalizar a arma suprema.

O FATOR BOHR Foi mais uma vez o fanatismo dos nazistas que salvaria os Aliados. Em agosto de 1943, as autoridades da ocupação organizaram um golpe em Copenhague e o próprio rei Cristiano X ordenou a Niels Bohr que deixasse o país. Após uma fuga via Suécia, Bohr chegou a Londres e os britânicos imediatamente encararam a difícil tarefa de convencer esse pacifista irredutível a participar do Projeto Manhattan.

No final de janeiro de 1944, a resistência norueguesa comunicou a Londres uma informação inesperada: após o bombardeio de novembro, os alemães, julgando a usina de Vemork pouco segura, decidiram enviar todo seu equipamento para a Alemanha. Assim, na manhã do dia 20 de fevereiro de 1944, a balsa que transportava para a Alemanha 39 contêineres de água pesada e 184 tubos de eletrólise, foi sacudida por uma gigantesca explosão provocada pelos sabotadores britânicos e afundou em quatro minutos. No dia seguinte, Washington e Londres suspiraram de alívio. Assim como em Oak Ridge e Los Alamos, onde os cientistas americanos trabalhavam em ritmo acelerado, auxiliados por seus colegas britânicos e físicos de 11 outras nacionalidades – entre os quais, um eminente professor dinamarquês dissimulado sob o pseudônimo de Nicolas Baker.

Os Aliados, porém, ainda não estavam tranqüilos. Temiam que os nazistas respondessem ao desembarque na Normandia com um ataque nuclear. Mas suas preocupações eram infundadas: quando as tropas do general George Patton ocuparam Estrasburgo em novembro de 1944, um destacamento responsável por averiguar qual era o real estágio das pesquisas atômicas nazistas descobriu que os alemães estavam muito atrasados em relação aos americanos.
Os militares americanos chegaram a essa conclusão ao confiscar documentos que também indicavam a localização dos centros de pesquisa nuclear alemães: Oranienburg, Heidelberg, Frankfurt e Haigerloch, que seriam todos ocupados entre março e maio de 1945. Em Haigerloch, descobriu-se um reator em um subsolo: só lhe faltavam 700 litros de água pesada para atingir sua massa crítica. Um a um, os físicos alemães foram presos: Hahn, Von Laue, Bethe, Gertner, Guerlach, Diebner, Von Weiszäcker e finalmente Heisenberg. Seu interrogatório confirmaria que a Alemanha nunca esteve em condições de construir a bomba, e isso por pelo menos meia dúzia de razões: rivalidade entre as equipes, falta de água pesada, destruições contínuas devido aos bombardeios, hostilidade tenaz de vários físicos em relação a Hitler e seu regime, orçamento insuficiente, falta de pessoal, e principalmente, desinteresse do Führer, que não tinha entendido nada do problema e mandara concentrar os trabalhos nos foguetes V1 e V2.

A partir de março de 1945, as informações obtidas na Alemanha começaram a se espalhar entre os cientistas de Los Alamos. Alguns ficaram aliviados, outros consternados. Leo Szilard chegou a tentar convencer Roosevelt a desistir do projeto de construir a bomba, mas já era tarde: o presidente morreu no dia 12 de abril de 1945, deixando para seu vice, Harry Truman, o maior segredo dos Estados Unidos.

Quando chegou à Casa Branca,Truman foi surpreendido primeiro pela notícia de que seu país possuía uma bomba de efeitos aterradores e, em seguida, que teria de decidir se ela deveria ou não ser usada na invasão do Japão. O novo presidente ordenou imediatamente a criação de um comitê para discutir a questão, formado pela alta cúpula do governo, das Forças Armadas e por três homens do Projeto Manhattan: Vannevar Bush, Karl Compton e James Conant. Outros quatro físicos seriam consultados: Robert Oppenheimer, Enrico Fermi, Arthur Compton e Ernest Lawrence. No dia 1º de junho de 1945 o comitê finalmente emitiu seu parecer: “A bomba será usada contra o Japão, o mais rapidamente possível”. Sabemos o que veio depois.
GLOSSÁRIO
PARTÍCULAS ALFA: Partículas carregadas positivamente, emitidas pelo núcleo de um átomo

ÁGUA PESADA: A partir da água, a eletrólise permite obter hidrogênio destinado à fabricação de amoníaco. A água pesada é um subproduto desse processo e serve como elemento “moderador” que desacelera os nêutrons emitidos para quebrar o núcleo dos átomos de urânio.
François Kersaudy é professor da Universidade Paris I, especialista em história contemporânea e autor de Stalin pela coleção “2 euros” do Memorial de Caen
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