Reportagem
  
edição 55 - Maio 2008
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A igualdade que não veio
Após a assinatura da Lei Áurea, os descendentes de africanos escravizados conquistaram a liberdade, mas não a cidadania. As elites tentaram apagar o passado escravista do país e substituíram as senzalas pela institucionalização da discriminação racial
por Flávio Gomes e Carlos Eduardo Moreira de Araújo
OS NEGROS VÃO À GREVE
Na segunda metade do século XIX, quando foram instaladas as primeiras ferrovias no Brasil, não foram apenas os trabalhadores livres e libertos que trabalharam nos trilhos. Na época, muitos escravos fugiam e iam trabalhar nas ferrovias, disfarçados de homens livres. Basílio foi um desses fugitivos que, em 1868, foi preso quando trabalhava como servente na estrada de ferro na Bahia. A polícia constatou que ele “estava sujeito à escravidão e não podia dispor de si para contratar seus serviços como pessoa livre”.

Depois de 1888, diversos trabalhadores negros, muitos deles ex-escravos ou descendentes de escravos, foram trabalhar legalmente nas estradas de ferro baianas. Galdino Calmom foi um deles. Filho de um africano chamado Lázaro Calmon, Galdino nasceu na Bahia por volta de 1867. Nos idos de 1894, sabe-se que ele era solteiro, tinha 27 anos, era analfabeto e residia no distrito dos Mares, região portuária e comercial de Salvador, onde trabalhava como carregador da estrada de ferro. Vivendo em condições precárias, com jornadas extenuantes de trabalho e baixos salários, Galdino liderou uma importante greve na capital baiana para exigir melhores salários. Ele e seus companheiros de greve acabaram presos. Assim como Galdino muitos outros operários negros continuaram a lutar contra a exploração durante toda a Primeira República, apesar da repressão policial. Essa é uma história que ainda precisa ser contada.

Já em 1909, uma série de greves paralisou quase todo o tráfego ferroviário na Bahia. Vivendo uma situação de exploração e hostilidade que consideravam insustentável, os trabalhadores se levantaram para protestar contra as longas jornadas de trabalho, os baixos salários e as imposições disciplinares (muitas vezes acompanhadas de castigo físico) que visavam controlar o ritmo de trabalho nas ferrovias. Em boletins distribuídos em Salvador nos dias 13 e 14 de outubro, os trabalhadores queixavam-se que a empresa queria colocá-los “na forma de escravos humilhados”. Nessa greve, os trabalhadores expressaram o que entendiam por justiça e direitos. Em alguns de seus panfletos, além de reivindicar reajustes salariais, procuraram distinguir-se da condição de trabalhador escravo. Com apenas duas décadas de emancipação, quando ainda não havia uma legislação que regulasse as relações entre patrões e empregados, a reivindicação por direitos passava pela luta contra a exploração. Talvez por isso, os trabalhadores grevistas lutassem com tanto empenho para combater práticas que os faziam lembrar-se de um passado não muito distante ¬– a escravidão.

POR ROBÉRIO S. SOUZA, doutorando em história social pela Unicamp
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Flávio Gomes e Carlos Eduardo Moreira de Araújo Flávio Gomes é professor do Departamento de História da UFRJ. Organizou o volume Quase cidadão – História e antropologia do pós emancipação no Brasil (Fundação Getúlio Vargas, 2007) e escreveu A hidra e os pântanos – Mocambos e quilombos no Brasil escravista Editora da Umesp, 2005), entre outros livros. Carlos Eduardo Moreira de Araújo é doutorando em história social pela Unicamp e um dos autores de Cidades negras – Africanos e crioulos no Brasil escravista (Alameda, 2006)
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