Reportagem
edição 38 - Dezembro 2006
Amazônia de Galvez a Chico Mendes
Os 100 anos por trás da nova superprodução da televisão brasileira. Uma saga de aventureirismo, exploração predatória e degradação ambiental. E o desafio de promover o desenvolvimento sustentável.
por Ana Lúcia Araújo
© carlos ruggi/ae
Chico Mendes, seringueiro e líder
A história do Acre é marcada pela personalidade dos líderes que lutaram por sua independência e desenvolvimento. Lembrados com entusiasmo pela população, foram eles o espanhol Luiz Galvez, que presidiu a República do Acre, o libertador Plácido de Castro e o líder camponês Chico Mendes. No início deste ano, a discussão sobre como o estado foi anexado ao Brasil voltou à tona. Recém-eleito presidente da Bolívia, Evo Morales relembrou então um antigo folclore político para incendiar a crise do gás. Ao discursar para chefes de Estado reunidos em Viena, o boliviano afirmou que o Brasil havia comprado o Acre de seu país pelo preço de um cavalo. Exagero, é claro. O Acre estava longe de valer um cavalo quando foi anexado ao Brasil. Valia ouro, o "ouro negro", como era chamada a borracha. A épica história da formação do estado, suas lendas e seu folclore devem voltar ao debate público em 2 de janeiro, quando a TV Globo prevê levar ao ar a minissérie Amazônia, de Galvez a Chico Mendes, da acreana Glória Perez, com direção geral de Marcos Schechtman.

Até 1880, o Acre estava ocupado praticamente apenas por índios. Para a Bolívia, proprietária do espaço, ali era uma terra não-descoberta. Segundo o diretor do Departamento de Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Acre, Marcos Vinicius Neves, a área servia de refúgio para todos. Havia brasileiros fugidos da seca no Ceará, da Guerra de Canudos, da Revolução Federalista do Rio Grande do Sul e até sírios e libaneses que escaparam dos turcos.

Adaptar-se à vida da floresta, porém, talvez fosse o maior desafio para quem se aventurava a trabalhar nos seringais. Nas palavras de Euclides da Cunha, que esteve na Amazônia em 1905, quando o Acre já havia sido anexado ao Brasil, "o homem, ali, ainda é um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido - quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão". Em À margem da história, o escritor relata como, apesar do descaso do governo em relação aos colonizadores, mas graças à ajuda do dinheiro estrangeiro, as cidades acrea-nas conseguiram prosperar. Segundo Cunha, era para a Amazônia que o governo despachava doentes e flagelados, sem oferecer suporte médico que lhes permitisse enfrentar o "inferno verde". Malária e beribéri eram algumas das temidas doenças autóctones.
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