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Reportagem

Bósnia: quando a história olha para o futuro

Ao celebrar 20 anos de independência, o jovem país luta para cicatrizar as feridas da guerra que devastou a região entre 1992 e 1995 e superar os traumas do passado recente para escrever uma nova história

Pôr do sol em Sarajevo, 6 de julho de 2011
texto Fernando Figueiredo Mello imagem Diogo Lucato

Nos charmosos e descolados cafés espalhados por toda a bela Cidade Velha, jovens apreciam o narguilé em uma ensolarada e quente tarde de julho. Famílias passeiam pelas calçadas e olham as vitrines das lojas de roupas. Turistas, a maioria europeus, encantam-se com a beleza exótica das ruas de pedra, das mesquitas e das ruelas estreitas do centro histórico. Comem cévapi (delicioso prato típico) no restaurante Zeljo, tomam sorvete de creme na sorveteria Egipat e se surpreendem.

Sarajevo pulsa. Em todos os cantos, é possível sentir a força de uma cidade que tenta respirar, se levantar e construir uma nova história para contar. Sarajevo sonha. Em todos os rostos, é possível notar uma esperança de que dias melhores virão. Sarajevo lembra. Em quase todos os prédios, as marcas da recente Guerra da Bósnia (1992-1995). Impossíveis de apagar.

A luta diária para se reerguer expressa na cativante capital da República da Bósnia-Herzegóvina é uma realidade em todo o país. Não é fácil. Muito pelo contrário. A recente e sangrenta guerra civil, ponto final do desmembramento da ex-Iugoslávia do marechal Tito, deixou cicatrizes profundas, não só no país, mas em toda a região dos Bálcãs.

Não sem muita dor e memória, os bósnios tentam olhar para a frente. Os mais velhos ainda falam com muito pesar da guerra e, principalmente, sentem saudade dos tempos de Tito, único capaz de trazer paz à região, unificando seis repúblicas sob a bandeira da Iugoslávia por quase 30 anos. Depois de sua morte, em 1980, veio o colapso.

Os mais jovens falam com mais naturalidade e desprendimento sobre o conflito. Querem cortar o fio de ódio e rancor e fechar a ferida aberta. Andrea Baotic e Tea Mijan não querem mais pensar em guerra. Vivem a vida. E so-nham. Sempre. Nascidas no início dos anos 1980, elas guardam lembranças de amigos e parentes que se foram, mas não guardam mágoa. Olham para o futuro.
Garotas fumam narguilé em bar no centro histórico de Sarajevo. Submetida ao maior cerco da história moderna, a capital é hoje uma cidade pulsante que, com sua beleza exótica, atrai milhares de turistas
Andrea estudou na Faculdade de Filosofia de Sarajevo, onde é professora assistente desde 2007. Tea graduou-se em direito e pretende estender a formação fora do país. As amigas demonstram carinho pela pátria, apesar de tudo. Gostam de contar histórias sobre a infância e adolescência. Expressam-se com extrema desenvoltura em inglês.

“O Rio de janeiro deve ser lindo, mas muito perigoso! Vi naquele filme...”, diz Andrea, referindo-se, claro, a Tropa de elite. Pergunto se é essa visão que tem do Rio e do meu país. Ela responde que sim. “Mas é complicado acreditar somente na visão que a mídia internacional tem de um país ou de um povo”, pondera, em alusão clara a como o mundo ainda vê a região dos Bálcãs.

“Curioso”, respondo, “essa imagem de violência que você tem aqui sobre o Rio e o Brasil é muito semelhante à que temos lá, sobre os Bálcãs, a Bósnia...” Andrea sorri, e a conversa segue, dentro de um clube noturno abarrotado e esfumaçado, o Cinemas Club. Não existe lei antifumo em Sarajevo. E como eles fumam, principalmente os jovens!

Os turistas se misturam aos locais e formam uma fauna interessante na noite de Sarajevo. E pensar que, pouco tempo atrás, a cidade não podia viver, sitiada pelo exército de Slobodan Milosevic e Radovan Karadzic por quase quatro anos. De 5 de abril de 1992, um dia antes do reconhecimento da independência do país pela ONU, até 29 de fevereiro de 1996 (mais de 1.300 dias), a capital ficou sob o mais longo cerco da história moderna.
Marcas de bala em muro na rua principal de Mostar, capital da região da Herzegóvina. As lembranças da guerra ainda estão por toda parte
Durante o período, a solidariedade foi fundamental para a sobre-vivência dos habitantes de Sarajevo. Um símbolo de resistência é o “Túnel da Esperança”, que hoje virou ponto turístico. Localizado a 12 km do centro da cidade, fica próximo do aeroporto internacional, que na época da guerra era a única saída para o chamado território livre, área controlada pela ONU. O trajeto de pouco mais de 800 metros embaixo da terra era o único caminho possível para a entrada de alimentos, armas e munição.

O túnel foi construído em pouco mais de seis meses, sem equipamentos ou projeto de engenharia, já que a resistência bósnia não poderia ser descoberta pelas forças inimigas. A partir do dia 30 de julho de 1994, ele foi fundamental para a sobrevivência de Sarajevo.

Outro símbolo de resistência é a Sarajevsko, a gostosa cerveja local, motivo de orgulho para os habitantes da capital, que hoje tem mais de 400 mil habitantes. A fábrica da cerveja fica muito próxima de uma das maiores fontes de água potável de Sarajevo. Com o corte da água – além de energia e gás de cozinha – durante o cerco, a cervejaria se tornou a grande responsável pelo abastecimento de milhares de habitantes. Hoje, existe um amplo bar anexo à fábrica, que é bastante frequentado por turistas.

Ao sul do país está Mostar, outra cidade muito visitada na Bósnia. É a capital da região da Herzegóvina, no sudoeste, e tem pouco mais de 130 mil habitantes. A exemplo de outros municípios da Herzegóvina, tem no rio Neretva a sua principal fonte de água e vida. Uma simpática cidade, pequena, porém bela, também muito marcada pela guerra civil.

No centro histórico, a ponte sobre o Neretva é símbolo de resistência. Construída em 1566-1567 pelos otomanos, foi destruída em 1993, após meses de ataques do exército bósnio-croata em Mostar. Em 2001, esse símbolo da cidade começou a ser reconstruído com patrocínio de instituições como a Unesco e de países como Itália, Holanda e Turquia, entre outros.
Depois de pouco mais de três anos, a ponte foi reinaugurada, no dia 23 de julho de 2004, com a presença de políticos e personalidades, como o príncipe Charles. Mais de US$ 17 milhões foram gastos na reconstrução do monumento.

Hoje, para as centenas de turistas que visitam Mostar e assistem, boquiabertos, a alguns loucos saltando de uma altura de 20 metros, é como se a ponte sempre estivesse lá. No entanto, a inscrição Don’t forget – 93 (Não esqueça – 93), em uma pedra próxima à ponte, revela muito bem o que os mostarianos pensam.

“Don’t forget” (Não esqueça) e “Never again” (Nunca de novo). Duas expressões e lemas que, em um primeiro momento, remetem ao Holocausto. Mas a Bósnia-Herzegóvina também preserva e vela seus mortos de guerra. Srebrenica é sua Auschwitz. O pequeno vilarejo no leste do país foi cenário do maior genocídio em solo europeu depois da Segunda Guerra Mundial.

Em julho de 1995, Ratko Mladic, general das forças bósnio-sérvias, preso em maio de 2011, comandou o massacre de mais de 8 mil civis de origem muçulmana em Srebrenica. A cada ano, no dia 11 de julho, a pequena cidade para e vela seus mortos no Me-morial de Potocari, onde atualmente estão enterrados 5.137 corpos. Para muitas viúvas, porém, o horror ainda não terminou: 3.200 cadáveres conti-nuam desaparecidos.

Em 2011, 618 novos corpos foram sepultados na cerimônia de 11 de julho. Com choro, angústia, mas também esperança. Estampada nos sorrisos e beijos de meninos e meninas em suas mães. Nos abraços entre amigos, em um reencontro em pleno Memorial, apinhado de gente e sob um calor de mais de 40 graus. Srebrenica ainda vive e está presente na Bósnia-Herzegóvina.

Bem perto do vilarejo, uma cidade escapou, por pouco, de um destino semelhante ao de Srebrenica. Com pouco mais de 30 mil habitantes, Go-razde fica às margens do rio Drina, na parte oriental da Bósnia-Herzegóvina.
Jovens se divertem em boate na cidade de Banja Luka. A agitada vida noturna da capital da República Srpska, região autônoma no norte da Bósnia, é um símbolo dos novos tempos nessa parte dos Bálcãs
Em 1992, a cidade sofreu um ataque-surpresa das forças bósnio-sérvias, mas conseguiu resistir. No entanto, muitos muçulmanos que tentaram escapar foram mortos de forma terrível. Há relatos de massacres, à noite, nas pontes sobre o Drina, quando os corpos eram jogados no rio.

Em 1994, Gorazde sofreu um se-gundo ataque, com muito mais força, dessa vez sob o comando de Ratko Mladic. Novamente, os próprios habi-tantes defenderam a cidade, à época já uma “área de segurança” da ONu, que nada fez.

Somente após os apelos do então presidente bósnio, Alija Izetbegovic, e da maciça cobertura das grandes redes de TV internacionais é que o mundo voltou os olhos para Gorazde. Uma ofensiva do exército americano afastou as forças inimigas da cidade. Derrotado, Mladic foi para Srebrenica.

Para os amantes de quadrinhos, Gorazde é sinônimo de uma obra- prima. Em 2000, o jornalista e quadrinista maltês Joe Sacco lançou Área de segurança Gorazde – A guerra na Bósnia Oriental – 1992-1995, um enorme sucesso no universo das HQs.

O livro é, realmente, uma obra- prima. Por meio dos traços marcantes de seus desenhos, Sacco descreve os quatro meses que passou em Goraz-de, em plena guerra civil, entre 1994 e 1995. Com sensibilidade, apresenta o olhar dos habitantes sobre a guerra, principalmente o de Edin, que se tornaria um grande amigo. Os sonhos, o pessimismo, a esperança: está tudo ali. Uma boa dica de leitura.
Do leste para o norte, existe uma região da Bósnia-Herzegóvina com população de maioria sérvia. A República Srpska foi formada antes da guerra civil, em uma manobra dos sérvios no Parlamento da Iugoslávia. Depois do conflito, o Acordo de Dayton, assinado em novembro de 1995, definiu que a Bósnia seria um país, mas com a República Srpska como segunda federação. Em tese, é outra nação, com Constituição, Parlamento e primeiro-ministro próprios.

A Constituição define a República Srpska como um território unificado, indivisível e com direitos de entidade independente, ou seja, com poderes legislativo, executivo e judiciário autônomos. Na prática, é um país à parte da Bósnia-Herzegóvina.

A capital é Banja Luka. Três impérios passaram pela cidade. Os romanos ficaram encantados com a água da região, especialmente a do rio Vrbas, que divide o município, e construíram um forte e um castelo na cidade. Otomanos e austro-húngaros tam-bém incorporaram Banja Luka a seus domínios, entrando até em conflito pelo território.

No século XX, a cidade sobreviveu aos ataques tanto do Eixo quanto dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, passou por um terremoto em 1969 e assistiu, de longe e sem maiores traumas, à guerra civil na Iugoslávia.

Hoje, é uma cidade que expressa a autonomia da República Srpska, com a personalidade e a força do Vrbas e sua população aberta e amável. Como Tibor Kljakic, o DJ que mostrou a cidade com entusiasmo e simpatia.
Para não esquecer: mulher caminha entre as lápides do Memorial de Potocari, onde estão enterradas as vítimas do massacre de Srebrenica
Tibor é o grande nome da música eletrônica bósnia na atualidade. Em 2011, ele ganhou uma competição nacional de DJs e, como prêmio, tocou com Fatboy Slim na Croácia, na primeira semana de julho. Hoje, busca seguir seu caminho e apresentar seu trabalho ao redor do mundo.

O amigo mostrou a cidade e até abriu as portas de sua casa para oferecer um delicioso almoço bósnio, em um domingo quente e ensolarado. Tibor contou a curiosa história de sua família. Os avós, pais de sua mãe, Ankica, se conheceram no meio da Segunda Guerra. Ele, um tenente do exército Partisan (resistência iugoslava), lutando contra os nazistas. Ela, uma alemã no seio do exército do Eixo. Um enredo de filme.

Entre memórias do passado, conversas do presente e sonhos do futuro, Ankica serviu o Bosanski Lonac, prato típico da Bósnia. É uma espécie de ensopado de legumes e carnes. Com a companhia de Tibor, foi possível conhecer Banja Luka por inteiro e entender mais um pouco desse país repleto de história.

Sarajevo, Mostar, Srebrenica, Go-razde, Banja Luka. Cidades, histórias, passado, presente e futuro misturados. Vinte anos depois de sua independência, ainda assombrada por seu passado recente, a Bósnia-Herzegóvina olha para o futuro, cicatriza as feridas e tenta escrever a própria história.