Reportagem
  
edição 58 - Agosto 2008
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Deng Xiaoping - O arquiteto do milagre chinês
O pragmático sucessor de Mao Tsé-tung mudou os rumos do socialismo em seu país e traçou o projeto de desenvolver a China por meio da liberalização econômica sem democracia
por Rémi Kauffer
©REUTERS/LATINSTOCK
A repressão aos protestos estudantis da praça Tianamen, em Pequim, provou que Deng Xiaoping não estava disposto a permitir a democratização da China
[continuação]

De volta à sua Sichuan natal, Deng foi encarregado primeiro de administrar a província e, depois, de organizar a anexação manu militari do Tibete. Seu desempenho brilhante nas duas tarefas lhe abriu o caminho, em agosto de 1952, para a Cidade Proibida, transformada em quartelgeneral dos dirigentes comunistas.

Em 1954, Mao Tsé-tung assumiu a presidência da República, Liu Chao-chi, instalou-se à frente da Assembléia Nacional Popular, e Deng Xiaoping se tornou secretário-geral do Partido Comunista Chinês. Mão gostava dele e os dois se encontravam com muita freqüência.

Chu En-lai acumulava as funções de chefe do governo e ministro das Relações Exteriores. Ainda que totalmente subjugado por Mao, o primeiro-ministro nunca abriu mão de certa dose de realismo. Sem dúvida, foi por esse motivo que se transformou no segundo “padrinho” de Xiaoping. Na ação do pequeno sichuanês, Chu detectava a marca de um pragmatismo ardente. Isso o agradava, pois Mao, na sua utopia da mutação per manente, já estava jogando o país no funesto “Grande Salto Adiante”, que custaria a vida de cerca de 20 milhões de chineses e cujo fracasso o levou a perder a presidência da República para Liu Chao-chi em abril de 1959. Ao lado de Liu, Deng teve um papel importante nesse afastamento. Mão se encheu de raiva, mas nunca confessaria a Deng o ódio feroz que sentia de Liu. Mais do que indulgência, uma estranha cumplicidade unia dois dirigentes tão diferentes como Mao e Deng. “Está vendo aquele homenzinho ali? É inteligentíssimo. Tem um grande futuro pela frente”, disse Mão a Nikita Kruchev em 1957.

Obcecado pela história antiga de seu país, Mao Tsé-tung se sentia um continuador dos imperadores que governaram ao longo dos séculos. Aos seus olhos, a Longa Marcha, a tomada do poder e a instauração de um novo regime constituíam atos igualmente fundadores. O Partido Comunista era apenas uma espécie de “nova dinastia” coletiva destinada a fazer com que a China renascesse.
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Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia.
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