Reportagem
  
edição 58 - Agosto 2008
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Deng Xiaoping - O arquiteto do milagre chinês
O pragmático sucessor de Mao Tsé-tung mudou os rumos do socialismo em seu país e traçou o projeto de desenvolver a China por meio da liberalização econômica sem democracia
por Rémi Kauffer
[continuação]

“MILAGRE ECONÔMICO” Deng Xiaoping não acreditava na democracia. Pelo menos demoraria muito a chegar a tanto. A China só se desenvolveria se conduzida pela única força centralizada do país, o Partido Comunista. Sem dúvida, um partido disposto a discutir, aberto, realista no plano econômico, mas cujo papel de guia não podia ser contestado. No fundo, as coisas não tinham evoluído desde que o jovem Deng aderira ao comunismo. Dramaticamente retardada por dez anos de Revolução Cultural, a China continuava sendo, aos seus olhos, um país imenso, pobre, subdesenvolvido que precisava “ser parido a fórceps”.

Sem consideração pelo amor-próprio tradicional de seus compatriotas, Deng não cessava de pôr o dedo na ferida. Mao queria fazer da China um novo Império do Meio. Deng defi niu um objetivo mais limitado para sua pátria: “chegar, na metade do século XXI, ao nível de um país medianamente desenvolvido”. E criou um método para isso: “Para que o socialismo seja concretamente superior ao capitalismo, é necessário que ele seja capaz de nos tirar da pobreza”.

O rumo a ser seguido era o da liberalização econômica sem democracia, e Deng se empenhou com ardor em construir esse caminho. Se durante a Revolução Cultural a China havia se tornado o império do “totalmente político”, sob Deng Xiaoping o Ocidente passou a vê-la como o reino do “totalmente econômico”.

Esse raciocínio, porém, era um tanto limitado: a realidade chinesa também era política, como demonstraram os protestos estudantis na praça de Tiananmem, em abril de 1989, ao reivindicarem o advento da democracia.

A resposta foi a repressão comandada pelo marechal Yang Shangkun e seu cunhado, o general Yang Baibing. Sangue nas ruas de Pequim. Apesar das aparências, nem por isso o principal líder chinês restaurou o maoísmo. Foi justamente o que ele demonstrou ao apoiar, na década de 90, o retorno progressivo e cautelosamente controlado do clã “reformador” (no sentido econômico do termo). Mas continuou fiel ao seu credo: sem a estrutura de um partido dirigente forte, a China jamais viria a ser uma grande potência. O homem que liqüidou o maoísmo nunca cogitou de se livrar de toda a herança do “imperador vermelho”, e aplicou ao seu antigo mestre a avaliação que Mao havia feito do próprio Deng 20 anos antes: “70% de bom e 30% de ruim”.
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Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia.
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