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Reportagem

Dossiê Napoleão: A segunda morte do Imperador

Napoleão repousa no Museu dos Inválidos? O escritor Georges Rétif acredita que ele foi envenenado pelos ingleses, que teriam substituído seu corpo no caixão para ocultar o assassinato.

Bruno Roy-Henry
Pomo da discórdia: O corpo que está na tumba do Museu dos Inválidos talvez não seja o do imperador
Santa Helena, 15 de outubro de 1840, cerca de 13 horas. Os generais Bertrand e Gourgaud, Emmanuel de Las Cases e os antigos servidores de Napoleão Bonaparte prendem o fôlego: o que irão descobrir no momento da retirada da tampa da urna funerária? Os 19 anos passados não teriam transformado o corpo num esqueleto hediondo? Não! Para surpresa geral, os restos de Napoleão aparecem milagrosamente conservados.

Em 15 de dezembro de 1840, a França organiza o retorno solene dos restos mortais de seu imperador, na presença do rei Luís Felipe, das autoridades de Estado e daqueles que continuavam fiéis a Napoleão Bonaparte.

Cento e vinte e nove anos mais tarde, em 1969, cabe à República, presidida por Georges Pompidou, conferir pompa à comemoração do bicentenário do nascimento de Napoleão. E é este o momento escolhido pelo escritor Georges Rétif de la Bretonne para escandalizar a opinião pública com sua obra Anglais, rendez-nous Napoléon!, na qual afirma que restos de imperador não repousam no Museu dos Inválidos. A afirmativa é imediatamente refutada pelo coronel MacCarthy, na época curador do Museu dos Inválidos.

A tese de Georges Rétif assim pode ser resumida: os companheiros de Napoleão, não desejando que sua fealdade física fosse legada à posteridade, decidem, depois de informar o governo britânico, substituir a máscara mortuária do herói pela de Cipriani Franseschi, mordomo da casa de Longwood, em Santa Helena, morto em fevereiro de 1818.
A partir desta idéia, o governo inglês acredita que pode levar a fraude adiante substituindo, sem riscos, os restos de Cipriani pelo corpo do imperador. Assim, os despojos de Napoleão foram transferidos para a Inglaterra - onde ainda estariam. Os companheiros de Bonaparte presentes, cúmplices agora, não podem protestar no momento da abertura do caixão, em 15 de outubro de 1840.

Um dos argumentos mais perturbadores apresentados por Georges Rétif recai sobre o estado de conservação do corpo, na exumação realizada em 1840.

Segundo testemunhas, o imperador estava perfeitamente reconhecível, como se tivesse sido mumificado. Ora, seu cadáver fora hermeticamente fechado em um caixão de folha-de-flandres, em 7 de maio de 1821, mais de 49 horas após o óbito. O coração e o estômago foram extraídos no momento da autópsia realizada pelo doutor Antommarchi.

Segundo as testemunhas do sepultamento - Marchand, criado de Napoleão, o general Bertrand, o conde de Montholon e alguns oficiais ingleses -, o corpo do imperador exalava um odor horrível, e seu rosto já estava desfigurado, sinais clássicos de putrefação. O processo de degradação dos tecidos poderia ter sido interrompido a ponto de, aproximadamente 20 anos mais tarde, nos encontrarmos diante de um corpo quase intacto? A ciência médico-legal poderia explicar a interrupção, quase instantânea, da decomposição de um cadáver?

Dentre os pareceres que chegaram a mim, em primeiro lugar é necessário lembrar a avaliação do doutor Vignolles, já falecido, que me escrevia em 1989: Efetivamente, a aparente conservação do corpo de Napoleão traz alguns problemas médico-legais [...]. Entretanto, [...] considero quase impossível que os restos mortais do imperador pudessem estar suficientemente conservados a ponto de serem reconhecidos 20 anos depois. Mais tarde, Vignolles acrescentaria: Contudo, me parece que, frente à precisão dos depoimentos, aqueles que assistiram à exumação de Napoleão estavam na presença de um cadáver previamente ?tratado? (para não dizer mumificado).
Seria ótimo se a medicina legal nos desse uma solução incontestável. Todavia, alguns contestam o estado de putrefação inicial. O doutor Chatenet, médico legista e perito do tribunal de apelação de Poitiers, conclui pela adipocera precoce. Trata-se de um processo de saponificação, pelo qual as gorduras transformam os tecidos em uma espécie de sabão. Muitos indícios levam a esta hipótese, como observa o doutor Chatenet, mas a descrição surpreende pela ausência total de modificação, 19 anos depois. A pele, no caso de adipocera, é marrom, freqüentemente grossa e ?cartonada?. Nada disso ocorre com o corpo exumado de Santa Helena.

Putrefato em 1821, reaparece o corpo em bom estado em 1840

Poderia tratar-se de mumificação? É uma possibilidade. Sob esse prisma, o doutor Chatenet examina a hipótese de o corpo de Napoleão ter sido objeto de embalsamamento sem o conhecimento das autoridades britânicas. Conseqüentemente, é necessário convir que a adipocera é o fenômeno bioquímico que melhor explica a conservação do corpo do imperador.

Resta uma hipótese, considerada pelo doutor Chatenet: o corpo de Napoleão, previamente impregnado de substâncias que contêm arsênico, não sofreu nenhuma putrefação. Hipótese que põe em evidência o dossiê sobre o envenenamento de Napoleão Bonaparte. Ele foi envenenado com arsênico, fato que explica a surpreendente conservação de seu cadáver. Tese reforçada por Ben Weider, responsável pela análise realizada nos laboratórios do FBI ? a polícia federal americana - dos cabelos de Napoleão, retirados em Santa Helena antes e depois de sua morte. Não se pretende reabrir esse dossiê. Notemos que o suposto envenenamento forneceu motivo para as autoridades inglesas substituírem o cadáver.

Entretanto, algumas explicações do coronel MacCarthy são aceitáveis. Às vezes, Rétif de la Bretonne força um pouco a dose. É o que acontece com a famosa distorção observada entre a descrição do sepultamento, que menciona apenas três tampas, e a presença devidamente comprovada de quatro tampas no momento da exumação. Nesse ponto, o militar parece ganhar do escritor. Em contrapartida, a descrição feita por Marchand e Antommarchi da forma como estava vestido o corpo de Napoleão é objeto de controvérsias.
Sabemos que o imperador foi sepultado com a farda habitual de coronel dos Caçadores da Guarda, com o grande colar da Legião de Honra, a cruz de oficial em ouro, a coroa de louros e a cruz da Ordem da Reunião. Os detalhes da vestimenta parecerão fastidiosos ao leitor, mas são essenciais para a compreensão da seqüência.

Resta-nos reconstruir o quadro feito por Rétif - e contestado por Mac Carthy - que ressalta as diferenças entre o sepultamento de 1821 e a exumação de 1840. É preciso reconhecer que ninguém - nem mesmo Marchand - mencionou precisamente se o colar da Legião de Honra tinha sido colocado sobre a roupa, como o imperador o utilizava nas cerimônias, e não sob a roupa, como fazia habitualmente. Portanto, nada podemos afirmar sobre o grande colar. Nesta questão, é impossível dar razão a um ou a outro. Já o argumento sobre a ausência da Ordem da Reunião é surpreendente.

Os depoimentos são formais: o sepultado de 1821 traz a condecoração; o exumado de 1840, não! Os céticos dirão que o ornamento poderia ter se desprendido, o que é possível, embora improvável. Atenção! Eis o melhor para o final: em 1821, Napoleão é sepultado com pequenas esporas de prata - fato indubitável.

Nenhuma das testemunhas de 1840 menciona as esporas: nem o doutor Guillard, nem os filhos de Las Cases, nem o general Gourgaud ou mesmo Bertrand. É possível que não as tenham notado? Poderemos sempre objetar que as testemunhas não tiveram tempo de mencioná-las, ou que as esporas não foram vistas por estarem escurecidas ou desamarradas (de novo!), a menos que não sejam as duas coisas ao mesmo tempo. Se procedente, esta tese inquietava os admiradores de Napoleão. O testemunho de Emmanuel de Las Cases não permite que prevaleça.

Eis o testemunho do camareiro do imperador no diário escrito a bordo do Belle-Poule: Entre as botas, cujo couro em torno dos pés não se reconhecia mais, mas que se mantinha preto no resto das pernas, estavam os dois vasos de prata.
Os vasos continham o coração e o estômago de Napoleão, que Antommarchi afirma ter colocado nos cantos inferiores do caixão. Mas isso não é o mais importante. Incontestável é a seguinte passagem: o couro em torno dos pés estava irreconhecível. A precisa observação de Las Cases não menciona, de forma alguma, as esporas de prata, que também não são mencionadas em outros depoimentos, sobretudo no testemunho do doutor Guillard, que esteve mais próximo do corpo. As demais testemunhas não estiveram próximas do corpo, bem entendido.

Mas, diremos, as esporas se soltaram e, por estarem escurecidas, não foram vistas! É uma hipótese singular, mas pouco plausível, considerando-se o tipo de fecho dessas esporas. Um fecho com uma lingüeta de couro pode apodrecer, mas deve-se considerar que a maioria das esporas possui um mecanismo que garante a integridade do conjunto: um semifecho que, ao contornar o tornozelo, junta-se a outro, que passa sob a sola.

De todos os argumentos apresentados para explicar as diferenças entre os depoimentos do sepultamento e os da exumação, este é o menos crível. O próprio coronel Mac Carthy não achou que deveria se explicar a esse respeito. Curioso para um velho cavaleiro... Firmemente ligadas ao redor de cada bota, mesmo admitindo-se que a lingüeta de couro tenha se rompido, as esporas não se desprenderiam dos tornozelos do imperador.

Las Cases ressalta, também, que os pés das botas estavam apoiados sobre os saltos! Nada de esporas nos saltos... Onde foram parar? Aqui está o elemento incontestável que fornece a chave para todo o resto. É preciso, pois, recuperar todas as observações precedentes que nos permitem pensar na substituição do corpo de Napoleão. Recapitulando: a cruz da Ordem da Reunião não se desprendeu; o colar da Legião de Honra foi colocado no pescoço, como era usual em ocasiões de gala; os vasos de prata estavam nos cantos do caixão, e não entre os pés do imperador.

No mínimo, os fatos acima provam que o caixão do imperador foi reaberto entre 1821 e 1840. Para reforçar esta tese, há outro argumento: o fato de o caixão de folha-de-flandres embora fechado em outro, de chumbo, e igualmente selado ? apresentar traços de oxidação, a ponto de impedir que pudéssemos soldar sua tampa novamente. Na falta de uma conclusão definitiva, a questão da identidade do exumado de 1840 e a de Napoleão está relançada!