História Viva


Clique e assine História Viva
Reportagem

É bicho na cabeça

Em 1892, surgiu no Rio de Janeiro uma bolsa de apostas em animais para aumentar o faturamento do zoológico administrado pelo barão João Batista Viana Drummond. Assim nascia um dos jogos mais democráticos da história do Brasil

Antonio Paulo Benatte
Charge de Angelo Agostini sobre o Encilhamento publicada na Revista Ilustrada em 1890 / FBN, RIO DE JANEIRO
Em tempos de Encilhamento, enquanto os pobres jogavam no bicho, os ricos jogavam na bolsa
O bichos de Vila Isabel, mansos ou bravios, fazem ganhar dinheiro depressa, e sem trabalho, tanto como fazem perdê-lo, igualmente depressa e sem trabalho, tudo sem trabalho, não contando a viagem de bonde, que é longa, vária e alegre.” Assim escrevia Machado de Assis, em 1895, em crônica no jornal A Semana. No mesmo ano, o poeta Olavo Bilac era bem mais moralista: “Hoje, no Rio de Janeiro, o jogo é tudo. Não há criados, porque todos os criados passam o dia a comprar bilhetes de bichos. Não há conforto nas casas, porque as famílias gastam todo o dinheiro do mês no elefante ou no cachorro. Ninguém trabalha! Todo o mundo joga...”.

O jogo do bicho foi inventado em 1892 pelo barão João Batista Viana Drummond, fundador e proprietário do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, em Vila Isabel. O barão de Drummond havia criado o jogo como um chamariz para animar a concorrência e aumentar o faturamento do zoológico. Muito rapidamente, os 25 bichos “fugiram” do zôo e foram incorporados ao dia-a-dia da cidade. Desde então, o Rio de Janeiro, capital da República desde 1889, tornou-se também a capital do jogo do bicho.

A invenção carioca nasceu numa fase de desenfreada especulação financeira e jogatina da bolsa de valores nos primeiros anos da República. O comércio em crise, para estimular as vendas, instituíra o sorteio de brindes. O barão Drummond, seguindo a correnteza, estipulou o prêmio em dinheiro, sorteando a cada dia uma placa com a figura de um entre 25 animais. Fora do controle do barão, os primeiros banqueiros associaram os animais a séries numéricas e o jogo passou a ser praticado como um fim em si mesmo. Isso foi o estopim para empolgar multidões e transformar o bicho na “instituição” que é ainda hoje.
Retrato do século XIX, autor desconhecido / REPRODUÇÃO
O barão João Batista Viana Drummond, dono do zoológico e inventor do jogo do bicho
A condenação mais comum ao jogo era que ele representava uma vontade de ganhar dinheiro e viver a vida sem trabalhar. Ora, por um lado havia, entre as elites republicanas, um constante esforço de dignificar o trabalho, que até pouco tempo antes era associado ao castigo bíblico e relegado aos escravos e pobres livres. Mas, por outro lado, havia também, no início da República, uma grande negligência em relação ao trabalho para os descendentes de escravos e de brancos e mestiços pobres –, quer dizer, para a grande maioria da população, em situação de quase inteiro abandono. Preferia-se o trabalhador imigrante, o branco europeu. Os postos de trabalho urbano eram insuficientes, precários e mal remunerados. Os índices de desemprego e trabalho informal eram altíssimos.

O sistema de jogo, no começo bastante simples, multiplicou-se conforme prosperaram a febre das apostas e os negócios ilícitos em torno dele. O jogo produzia diariamente instantes de verdadeira efervescência coletiva. Na hora dos sorteios, uma onda de emoção varria a cidade. A tensão provocada pela expectativa do resultado foi descrita por Luiz Edmundo no seu livro O Rio de Janeiro do meu tempo (Xenon Ed., 1987):

“De duas e meia às três da tarde as cozinheiras entravam em férias. Hora mestra do dia, hora de correr o bicho! De resto, toda a cidade está sobressaltada e atenta:

– Já se sabe?
Tiram-se os relógios.
– Está quase, já passam de
duas e meia...
De repente, a lufada da notícia
na cidade:
– Urso, com 92! Urso!

A nova corre célere de boca em boca. Meia hora depois não há uma pessoa na cidade que não saiba o resultado do jogo. Nas casas é um verdadeiro delírio!”.
ABL, RIO DE JANEIRO
O poeta Olavo Bilac, crítico da nova mania que nasceu com a República
Do Rio de Janeiro, o jogo do bicho espalhou-se pelo território brasileiro junto com o telégrafo, o rádio e o telefone. Os bicheiros souberam explorar todas as potencialidades dos novos meios de comunicação. Eles possibilitavam vários sorteios diários com a divulgação imediata dos resultados em nível nacional. No final dos anos 20, conquistara definitivamente o Brasil, tanto nas zonas urbanas como nas rurais, mas principalmente nas grandes e médias cidades.

Os observadores mais realistas reconheciam a impossibilidade de extinguir o bicho por outro meio que não através de uma mudança profunda da “mentalidade do brasileiro”, quer dizer, dos modos de ser, pensar, sentir e agir da maioria da população. Em 1911, o jurista Macedo Soares, a exemplo de tantos outros, observou que o jogo se radicara a tal ponto nos hábitos sociais que era impossível erradica-lo pela lei e repressão policial: “Este jogo encontrou um meio de miséria após a jogatina da bolsa [o Encilhamento], proliferou e criou raízes tão profundas que não será certamente a golpes de lei ou de arbitrariedades policiais que o poder público poderá extirpá-lo dos nossos costumes”.

De fato, as periódicas campanhas de repressão e perseguição a bicheiros – e principalmente a cambistas – não impediram a sua ascensão como verdadeira paixão popular, ao lado do futebol e do carnaval. As diversas tentativas de torná-lo legalmente abolido esbarraram em resistências sociais e culturais de toda ordem. Em 1932, o poeta Murilo Mendes, atestando o enraizamento do jogo na cultura popular, deu uma definição irreverente do que chamou o Homo brasiliensis: “O homem/É o único animal que joga no bicho”.
MIS, RIO DE JANEIRO
Praça XV de Novembro: as bancas de jogo funcionavam junto com o comércio e os resultados do sorteio corriam a cidade
Combatido, polêmico, situado na fronteira entre o mundo da ordem e o da desordem, ele pode ser considerado “a contravenção mais controvertida” do país e um de seus fatos sociais mais significativos do Brasil moderno. A presença de temas ligados ao universo do bicho é marcante na canção popular, na literatura, no teatro, no cinema, no anedotário, no folclore, e claro, na jurisprudência criminal, na legislação e na doutrina penal. No seu Dicionário do folclore brasileiro, Câmara Cascudo escreveu: “É o jogo diário de milhões de brasileiros, vício dominador, irresistível e soberano. (...) Contra ele a repressão policial apenas multiplica a clandestinidade. O jogo do bicho é invencível. Está, como dizem os viciados, na massa do sangue”.

Quais as causas de tamanho enraizamento na cultura de milhões de pessoas? Ao contrário dos cassinos elegantes e dos jogos privados – em que o pobre e o remediado não podiam sequer entrar quanto mais jogar –, o bicho surgiu como um jogo público e acessível, a começar pelo baixo valor das apostas. Além disso, ele dava motivos para as conversações cotidianas, numa cidade que crescia rapidamente e onde as pessoas se tornavam cada vez mais anônimas e desconhecidas umas das outras.

Em Ordem e Progresso (1959), Gilberto Freyre descreveu o jogo do bicho como uma das poucas atividades democráticas no início da vida republicana. “Nos bondes, de regresso do trabalho a casa, um dos assuntos principais era qual dos passageiros ganhara no bicho; e por que, em virtude de que tabela ou de que sonho. Quase sempre era em virtude de sonho: em torno da interpretação dos sonhos ou de seus símbolos se prolongavam conversas das quais participavam indivíduos de diferentes classes, raças e profissões, democraticamente reunidos pelo bonde e pela paixão pelo jogo do bicho.”

O jogo, portanto, era muitas vezes ocasião de encontro e contato – de relação social.
MUSEU HISTÓRICO NACIONAL, RIO DE JANEIRO
O mercado da praia do Peixe em 1890: um retrato do Rio de Janeiro na época do surgimento do jogo do bicho
SORTE GRANDE Toda a cultura ligada ao bicho gira em torno da crença na sorte. Em Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, o historiador José Murilo de Carvalho mostrou que a crença na sorte, como meio de enriquecimento rápido e sem esforço, era difundida em toda a sociedade carioca durante os primeiros anos da República. A intensa especulação financeira do Encilhamento foi a expressão mais característica desse “espírito do capitalismo sem ética protestante”, ou seja, de uma vontade de enriquecer sem trabalhar e poupar.

Em Conceito de civilização brasileira (Cia. Editora Nacional, 1936), Afonso Arinos de Melo Franco verificava que a tendência popular para o jogo é histórica: “Desde o período colonial, a tendência do nosso povo para o jogo preocupava a administração reinol, que a procurava combater. E essa tendência não tem feito mais do que se acentuar”. Preocupado, como tantas outras belas almas, em moralizar os pobres para o trabalho, o bicho é para o autor uma verdadeira “instituição nacional” – principalmente, e lamentavelmente, entre as “classes proletárias”: “O jogo do bicho transformou-se em instituição nacional, irreprimível pelos poderes públicos. Pela sua natureza de jogo barato, é o veículo de expressão, para as classes proletárias, do mesmo instinto que entre as abastadas e as médias se exprime pelos outros jogos”.

Nesse contexto, o sonho de tirar a sorte grande e, assim, triunfar sobre as necessidades do dia-a –dia indicava no mínimo uma leitura cética, desconfiada, da moral do trabalho que acompanhou a modernização da sociedade desde os anos 1870. A crença na sorte, na “salvação pelo acaso”, relativizava o valor que a sociedade burguesa atribuía ao trabalho.

Além disso o jogo propiciava uma experiência da igualdade de chances, num ambiente de relações desiguais de poder entre classes (ricos e pobres), etnias (brancos e negros) e gêneros (homens e mulheres). Numa época de grande autoritarismo, inexistência de cidadania e quase nenhuma participação política, o bicho manifestava um desejo de participação mais ampla na vida social, econômica e política. Não é de estranhar que ainda hoje corra solto pelas ruas.

O JOGO NAS LETRAS

Além de Machado de Assis e Olavo Bilac, outros escritores brasileiros da época registraram a rápida expansão do jogo pelo Rio de Janeiro. Em sua revista dos acontecimentos de 1898, o teatrólogo Arthur Azevedo apresentava um “Lundu do Malandrismo”, canção em ritmo africano que fazia referência às paixões despertadas pelo jogo:

Menino, o jogo dos bichos
É o jogo de mais caprichos!
Nem da roleta os esguichos
Produzem tal comoção!
Jogar é mesmo um regalo
Na borboleta ou no galo,
No cavalo ou no leão!
Quem bem nada não se afoga,
Quem cai não passa do chão,
E quem nos bichos não joga
Não tem consideração.

Na Gazeta de Notícias de 29 de setembro de 1907, João do Rio considerava o bicho a primeira das coqueluches cariocas:

“Há 7 pecados mortais, 7 maravilhas do mundo, as 7 idades do homem, os 7 sábios da Grécia, as 7 pragas do Egito... O Rio tem 7 prazeres: o bicho, o maxixe, o vissi d’arte, os meetings da oposição, a polícia, a propaganda A Europa curva-se ante o Brasil e os cinematógrafos”.

O jornalista e escritor Lima Barreto, nas Coisas do reino do Jambon, cita uma carta do desempregado F., datada de 1911 e endereçada ao doutor Bico-Doce, oráculo oficial do Talismã, um dos vários jornais cariocas especializados nas “coisas do jogo do bicho”. O documento registra a esperança popular “nas sortes” para “minorar a aflição dos pobres”:

“Senhor, (...) tenha compaixão deste pobre sofredor que há 2 anos está desempregado, e que neste longo período, posso vos dizer que tenho passado os dias bem acerbos (...). Peço dinheiro emprestado, e compro todos os dias [os jornais] Mascote, Bicho e o Talismã e nunca sou capaz de acertar em um bicho ou numa dezena que me liberte deste jugo que tanto tem me mortificado o espírito e já me acho desanimado da sorte que me tem sido tão tirana.

Pois bem, em nome de Deus vos peço, dê-me uma dezena ou centena num destes dias em que a natureza lhe der inspiração, porque aos espíritos bem formados
Ele protege a fim de poderem espalhar com aqueles menos favorecidos as sortes (...).”

Era o retrato da busca no jogo de uma melhor condição de vida que a sociedade não conseguia oferecer.

PARA SABER MAIS

Lance de sorte: o futebol e o jogo do bicho na Belle Époque carioca. Micheal Herschmann e Kátia Lerner. Diadorim, 1993.

Águias, burros e borboletas: um estudo antropológico do jogo do bicho. Roberto Damatta e Elena Soarez. Rocco, 1999.

Antologia do jogo do bicho. Renato Pacheco. (org.) Simões, 1957.

O jogo do bicho: a saga de um fato social brasileiro. Simone S. F. Soares. Bertrand Brasil, 1993.

As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Flora Süssekind. Nova Fronteira, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986.