Reportagem
  
edição 35 - Setembro 2006
Émile Zola- entre a genialidade e a justiça
A fama do escritor francês veio não só de suas obras como também de seu empenho em defender a absolvição de um condenado, desafiando a justiça e a política de sua época.
por Henri Mitterand
Émile Zola no escritório parisiense em 1868, em retrato feito pelo amigo Manet
Junho de 1908. Os restos mortais de Émile Zola são levados ao Panthéon. Um fanático nacionalista e anti-semita, Gregori, dispara contra o comandante Alfred Dreyfus e o fere no braço. As brasas do caso Dreyfus não estão extintas, os velhos rancores permanecem vivos. Em 29 de setembro de 1902, a morte de Zola, por asfixia em seu apartamento da rue de Bruxelles, fora talvez a conseqüência de um atentado. Três teses se contrapuseram a esse respeito: a da investigação oficial, que concluiu por um acidente, a de uma investigação particular feita em 1952, que apoiou em testemunhos indiretos a hipótese de um ato criminoso, e uma outra, recente, do comissário Marcel Leclère, que se inclinou pela hipótese de uma morte involuntária, resultante de erro. Em 30 de setembro de 1902, La Libre Parole, jornal do líder anti-semita Drumont, dizia na manchete de primeira página que Zola havia sido asfixiado. Alguns choraram, outros aplaudiram. Zola era então, e desde muito tempo, objeto de admirações incondicionais e de ódios irreconciliáveis; literários, morais, políticos. Ele jamais detestou isso.

Émile Zola nasceu em 10 de abril de 1840, no coração de Paris, filho de um engenheiro de origem veneziana, Francesco Zola, e de Emilie Aubert, natural da região da Beauce, 24 anos mais jovem que o marido. François Zola construiu em Aix-en-Provence a barragem e o canal Zola. Morreu em 1847 das seqüelas de um resfriado. Seu filho, órfão aos sete anos, viveu em Aix até perto dos 17, enfrentando dificuldades cada vez maiores, pois a família foi enganada pelos homens que se apoderaram da empresa do canal Zola. É assim que se formam os revoltados. No colégio Bourbon de Aix-en-Provence, ele teve como companheiro mais próximo Paul Cézanne, filho de um banqueiro, que sonhava em pintar com o mesmo ardor com que ele sonhava em escrever. Encontro extraordinário de dois garotos que lançariam por terra todas as convenções da arte. Quando Zola "subiu" para Paris, em fevereiro de 1858, foi um rude golpe em uma amizade que ainda se prolongaria por quase 30 anos.
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Henri Mitterand é professor emérito na Sorbonne Nouvelle. Publicou numerosos textos sobre a obra de Zola e sobre os romancistas dos séculos XIX e XX.
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