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Reportagem |
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| edição 54 - Abril 2008 |
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| Encontramos Rômulo e Remo! |
| Arqueólogos romanos descobriram a gruta onde, segundo a lenda, os gêmeos que fundaram Roma teriam sido amamentados pela loba. Todos os anos, no dia 15 de fevereiro, acontecia uma festa no local |
| por Baudouin Eschapasse |
| A FRONTEIRA ENTRE MITO E HISTÓRIA NÃO VALE MAIS |
Esclarecimentos de Alexandre Grandazzi, professor de literatura latina em Paris IV – Sorbonne e especialista em Roma.
Baudoin Eschapasse – Há anos que os arqueólogos procuram Lupercal, a gruta onde a loba teria amamentado Rômulo e Remo. Por que lhe dão tanta importância? Alexandre Grandazzi – Porque, talvez, ela transporte diante de um local de culto maior, que tinha um grande valor simbólico de comunidade e identidade. Porém devemos ser prudentes: por enquanto ninguém entrou nesta cavidade que ainda está quase cheia de terra [a exploração foi feita com uma câmera]. Mesmo se os textos antigos indicam que a Lupercal se localizava realmente na zona onde foi encontrada.
B. E. – Essa descoberta confirma a lenda da fundação de Roma? A. G. – Por mais excepcional que seja, essa descoberta não é suficiente para provar a veracidade da lenda da fundação de Roma. Mas, se for comprovada, ela mostraria que a lenda romana apoiava-se em uma série de tradições e locais de culto, alguns dos quais poderiam ser muito antigos, pelomenos da idade do bronze: nesse caso, estamos lidando com o fenômeno bem conhecido das grutas cultuais, e muitos exemplos mostram em locais desse tipo uma freqüentação e práticas religiosas que vão desde a Pré-história até a Idade Moderna. Os textos dizem que a gruta havia sido reformada por Augusto e as imagens transmitidas pelos arqueólogos italianos mostram uma decoração que parece datar do início do império.
B. E. – Isso contribui para que a linha que separa mito e história não fique mais tão nítida? A. G. – O que fica claro com essa descoberta, é que a linha de separação traçada pelos cientistas do século XIX, teoricamente intransponível, entre mito e história, entre verdadeiro e falso, não vale mais. Na realidade, a presença do mito não prova a ausência da história. Pelo contrário! Existe um mito sobre Napoleão, o que não implica que o imperador não tenha existido... Acontece o mesmo com Rômulo: o nascimento da cidade romana, no meio do século VIII antes da nossa era, foi um acontecimento de tão grande alcance histórico que, para guardá-lo na memória e celebrá-lo, os romanos contaram-no sob forma de mito, dando o melhor papel aos deuses e ao maravilhoso, e transformando-o assim em ritos de identidade coletiva. Se quisermos compreender o significado dessas lendas antigas, precisamos rever nossos preconceitos científicos herdados do século XIX. |
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| Baudouin Eschapasse é jornalista e colaborador da revista Historia |
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