Reportagem
  
edição 72 - Outubro 2009
Quando a história vira uma arma do nacionalismo
Marcelo Cândido da Silva, professor de história medieval da USP alerta para os riscos de buscar uma base étnica para as nações modernas. Levada ao extremo pelos nazistas, a prática foi usada para justificar as teses da superioridade racial
por Bruno Fiuza
© LUIZ FERNANDO MACIAN
Cândido: “A principal contribuição dos estudos sobre a origem dos povos bárbaros foi colocar em xeque a ideia da etnia como um dado objetivo”
Professor de história medieval da Universidade de São Paulo, Marcelo Cândido da Silva é um dos que criticam o uso que os movimentos políticos nacionalistas vêm fazendo desse campo do conhecimento desde o século XIX. Em entrevista a História Viva, ele explica como os Estados nacionais criaram mitos de origem para estabelecer um vínculo entre as nações modernas e povos de um passado remoto. Mesmo desacreditada após a queda do nazismo, a reivindicação das origens étnicas de um país ainda é usada para legitimar formas violentas de nacionalismo.

História Viva – No século XIX, os Estados nacionais criaram um passado mítico para si mesmos, buscando suas raízes em povos do passado. Qual foi o papel desempenhado pelos historiadores nesse processo?
Marcelo Cândido da Silva – O nascimento da história como disciplina científica está associado à emergência dos Estados nacionais europeus depois da derrota de Napoleão e ao longo do século XIX. Desde muito cedo, os historiadores foram chamados a participar desse debate. Na Europa daquele período, o interesse pela Idade Média
se devia, em grande parte, à necessidade de definir as raízes das nações modernas. Pela primeira vez, esse período da história passou a ser visto como algo positivo pelos estudiosos, como o espaço no qual as diversas identidades nacionais se constituíram. Na segunda metade do século XIX, sobretudo, os historiadores na França e na Alemanha, particularmente os medievalistas, tiveram um papel muito importante nesse debate.

HV – Onde os franceses foram buscar suas origens?
Marcelo – No caso francês há, desde os tempos da monarquia, uma associação estreita entre a França e o passado galo-romano. Os reis franceses espalharam estátuas por todo o país nas quais aparecem vestidos como imperadores romanos, de quem teriam recebido seu poder, segundo alguns estudiosos. Um historiador que ousou dizer que os reis franceses eram herdeiros dos bárbaros foi jogado na Bastilha.
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Bruno Fiuza É editor-assistente da revista História Viva.
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