Reportagem
edição 24 - Outubro 2005
Henrique VIII, o primeiro anglicano
Culto e apaixonado por teologia, o rei da Inglaterra rompeu com a Igreja Católica, quando o papa se recusou a decretar seu divórcio de Catarina de Aragão; o cisma estava consumado.
por Bernard Cottret
O rei inglês: de defensor a adversário da Igreja. Retrato de Henrique VIII, de Hans Holbein
Em seu livro História das variações das igrejas protestantes, o escritor Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), relacionava a morte de Lutero, em 1546, com a de Henrique VIII no ano seguinte. Ele entendia que esses dois homens não foram igualmente responsáveis pelas "grandes mudanças na religião". Em 1688, Bossuet lembrava que Henrique VIII "deu muitas esperanças nos primeiros anos de seu reinado", para finalmente fazer "péssimo uso das raras qualidades de espírito e de corpo que Deus lhe proporcionara". A ruptura da Inglaterra com Roma e a supremacia real sobre a Igreja estavam entre essas faltas.

Durante a primeira metade de seu reinado, Henrique apareceu como o príncipe cristão por excelência, defensor dos valores humanistas e crítico fervoroso dos inimigos da Santa Sé. Mas há dúvidas se Henrique VIII foi mesmo um príncipe "protestante" e "reformador" do mesmo valor que Lutero.

Naquele mesmo ano, o escocês Gilbert Burnet, como bom protestante, assinalava em sua História da reforma da Igreja da Inglaterra que era preciso situar Henrique VIII "entre os grandes príncipes", muito mais que "entre os bons reis". E enfatizava como, às vezes, determinados caminhos podem ser obscuros: "A Providência é admirável por ter suscitado um príncipe com essa disposição para nos abrir o caminho a uma Reforma satisfatória, o que dificilmente foi feito por um outro". Quase inconscientemente, Henrique VIII contribuiu para o desenvolvimento do protestantismo: "A Bíblia foi traduzida em língua vulgar; exibiram-na publicamente nas igrejas; todos tiveram liberdade para lê-la; chegou mesmo a ser reconhecida como a única regra da fé. Isso não podia deixar de abrir os olhos do povo".

Cinco anos após Bossuet, o padre Pierre Joseph d'Orléans registrou sutilmente, em sua História das revoluções da Inglaterra, que Henrique VIII derramara sangue de católicos e luteranos, "indiferentemente". Em suma, esse despotismo de Estado obediente à legalidade da época não parece, portanto, seguir um perfil religioso preciso. Seria difícil saber, à primeira vista, se Henrique VIII era católico ou protestante. Ou, mesmo, se a ruptura com a Santa Sé não foi ainda mais política que religiosa.
Henrique VIII, durante a primeira metade de seu reinado, desfrutou de uma imagem de príncipe católico, respeitador dos papas. Contrariamente aos franceses, reprovados por sua ação na Itália, os ingleses apareciam como os bons meninos da cristandade latina. O principal ministro de Henrique VIII, o cardeal Thomas Wolsey, até ambicionou tornar-se papa. Em outubro de 1518, foi assinado em Londres um tratado que estipulava os fundamentos de uma "República Cristã", dirigida contra os turcos. Além do rei da Inglaterra, o imperador Maximiliano e o rei da Espanha, Ferdinando, utilizaram suas armas sob a proteção do Santo Padre Leão X. Os franceses finalmente se associaram a essa aliança militar firmada em Roma no mês de dezembro. Wolsey, como declarou um embaixador veneziano, foi um perfeito "árbitro da cristandade".

Sentimento de culpa
Três anos mais tarde, Henrique VIII corria em socorro do papa contra Lutero, defendendo os "sete sacramentos" do catolicismo, dos quais apenas dois foram mantidos no luteranismo: o batismo e a eucaristia. O rei insistia particularmente na beleza do sacramento do matrimônio, sempre condenando a "vergonha da luxúria", que, segundo ele, devia dar lugar ao mais puro amor conjugal, destinado à reprodução. A situação é particularmente cômica quando se conhece a continuação dessa história, já que Henrique VIII se casou seis vezes, e duas de suas esposas acabaram com a cabeça sobre o cepo. Mas, na época, o papa estava encantado e concedeu-lhe o título de "Defensor da Fé", do qual ele faria péssimo uso.

Henrique VIII casara-se em primeiras núpcias, no mesmo ano em que chegara ao poder, com a infanta Catarina de Aragão. Esta fora unida anteriormente ao irmão mais velho de Henrique, o príncipe Artur, morto com certeza muito jovem para ter conhecido carnalmente a esposa. De 1509 a 1526-1527, isso não constituiu nenhum problema insuperável ao casal. Mas as coisas se precipitaram quando Henrique VIII, desolado por não ter herdeiro do sexo masculino fruto de sua união, convenceu-se de que infringira a lei divina. Estava escrito no Levítico: "Não descobrirás a nudez da mulher de teu irmão; é a nudez de teu irmão" (Lv 18, 16). O rei acreditava que Deus lhe tinha virado o rosto para puni-lo por seus pecados, semelhantes a um incesto.

Mas o papa, outrora complacente, recusou-se a declarar a nulidade do casamento. Além disso, Henrique VIII estava apaixonado por uma jovem, Ana Bolena, de quem pensava, erradamente, que iria ganhar o herdeiro que esperava.

As diversas universidades européias da época foram chamadas a se pronunciar sobre o caso do divórcio e emitiram julgamentos contraditórios. Certo de seu direito, Henrique VIII decidiu transgredir a proibição do papa, e obteve a anulação do casamento. Sem hesitar, ele esposou Ana Bolena pela primeira vez em novembro de 1532, e depois publicamente em janeiro. Não se podia esperar mais, pois Ana já estava grávida da futura rainha Elisabete.
No mesmo mês, Thomas Cranmer foi nomeado arcebispo de Canterbury com o acordo da Santa Sé. As relações, porém, já estavam rompidas; era tudo questão de algumas semanas ou de alguns meses. A sagração do novo primaz ocorreu no final de março de 1533, incluindo ainda, segundo os costumes, o juramento de obediência ao papa. Mas em 10 de maio, um tribunal eclesiástico inglês anulou o casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, mais de seis meses após este ter se casado com Ana Bolena.

Confisco de bens
A Reforma, acontecimento espiritual, foi incontestavelmente um negócio na Inglaterra.

Igreja, particularmente o confisco dos bens monásticos, se mostrou rendosa. Isso foi comprovado com a interrupção provisória, e logo definitiva, do pagamento a Roma das anatas, estimadas em 4.800 libras. A medida se tornou, de 1532 a 1534, o símbolo de uma resistência fiscal que se estendeu a outras esferas; e, logo em seguida, ao campo jurídico: questionava-se por que um inglês, a começar pelo rei da Inglaterra, deveria se apresentar diante de uma justiça estrangeira no lugar da de seu país.

Em 1533, tornava-se teoricamente impossível apelar ao bispo de Roma em questões relevantes dos tribunais eclesiásticos insulares. No mesmo ano, Henrique VIII transformou-se em chefe supremo da Igreja da Inglaterra. Pergunta-se, então, se dessa forma ele se converteu num novo papa. A resposta é sim e não. Não, caso se insista no papel episcopal do papa que pode ordenar novos padres, dar os sacramentos e pregar. Sim, caso se entenda que ele tem competência para julgar a aceitabilidade dos Artigos de Fé. Henrique VIII acreditava ser teólogo, ao contrário da maioria dos soberanos ingleses, que, desde sua época até o início do século XVII, resguardavam-se de qualquer discussão dogmática profunda, com exceção de Jaime I. Mas Henrique VIII, por bem ou por mal, tomou a sério o rótulo de "Defensor da Fé", que um papa lhe dera.
No plano doutrinal, a Inglaterra conheceu, a partir de 1530, um percurso bem sinuoso. O católico Thomas More, autor da imortal Utopia, morreu por sua fé em julho de 1535. Deve-se, sem dúvida, a seu martírio a canonização tardia em 1935. Mas a execução de vários católicos notórios não foi suficiente para estabelecer uma doutrina protestante. Em julho de 1536, os "Dez Artigos", frutos de uma inspiração bem protestante, reconheceram, em vez dos sete anteriores, apenas três sacramentos: batizado, confissão e eucaristia. Henrique VIII insistia em seu papel: "Entre outros encargos confiados a nosso ofício de príncipe, para o qual Deus nos chamou pela graça de sua infinita bondade, sempre apreciamos e refletimos, e continuamos a apreciar e a refletir sobre o que nos cabe velar, não apenas com relação aos nossos assuntos ligados à Santa Palavra de Deus e a seus comandos, mas também a sua prática, a fim de que a unidade e a harmonia nos assuntos da religião ponham um fim eficaz e definitivo na discórdia".

Em junho de 1539, porém, os "Seis Artigos" retornavam ao catolicismo doutrinal. Eles retomaram a essência dos dogmas católicos, inclusive sobre a questão central do "Santo Sacramento do altar" ou eucaristia. Os padres que tinham uma tendência declarada ao casamento eram encorajados a se separar de suas companheiras, ao mesmo tempo que se reafirmava a legitimidade da "missa baixa", expressão que designava essa cerimônia quando oficiada sem cânticos, e dos benefícios da confissão auricular. O Livro do rei (King's book) só repreendeu essas idéias em 1543. Pode-se afirmar que Henrique VIII certamente morreu católico, ou pelo menos que, à exceção do reconhecimento do papa, o conteúdo de sua fé não era fundamentalmente diferente antes e após o cisma com Roma.

Conversão definitiva
O rei francês Henrique IV foi um dia levado a se pronunciar sobre seu homônimo inglês. A cena se passou em 1591, enquanto ele ainda tentava readquirir seu reino, antes mesmo de sua conversão definitiva ao catolicismo. Ele disse, então, coisas extremamente justas a respeito de Henrique VIII. Lembrou que mais de um rei no curso da história "cansou-se do jugo espiritual e temporal dos bispos de Roma". E mais: "Que nossos papas pensem nisso, se quiserem; que talvez nós estejamos às vésperas de fazer a mesma coisa (...)".

Segundo Henrique IV, a situação inglesa não era única. A Igreja da França podia ser tentada a seguir seu exemplo: "Sobrevindo esse mal, numa época em que se bradava contra os papas, foi bem fácil persuadir esse rei a reagir contra o jugo dela, e de se contentar em ter a doutrina universal e católica, mas em seu país e com uma polícia eclesiástica e uma ordem do clero particular que só dependesse dele. Proposição que de forma alguma seria difícil defender e que não se afastaria dos privilégios e das liberdades da Igreja galicana".

Logo se diria que Henrique VIII foi um papa em seu reino. Ele, no mínimo, trouxe à luz, na aurora dos tempos modernos, as tensões sempre crescentes entre a Igreja e o Estado.

-Tradução de Rosane Mavignier Guedes
A ruptura com Roma
1531: anistia do clero nacional mediante pagamento de multa

1532: restrição do pagamento das anatas ao papa

1533: ato proibindo apelar a Roma

1534: ato para submissão do clero; ato proibindo qualquer pagamento de anatas; ato de supremacia decretando que o rei é chefe supremo da Igreja da Inglaterra

1536: primeira dissolução dos mosteiros

1539: segunda dissolução dos mosteiros
As seis esposas de Henrique VIII
Catarina de Aragão, de 1509 a 1533 ("divorciada")

Ana Bolena, os três anos seguintes (executada)

Jane Seymour, de 1536 a 1537 (morta 12 dias após dar à luz Eduardo VI)

Ana de Clèves (repudiada pouco após o casamento, em janeiro de 1540)

Catarina Howard (executada em fevereiro de 1542 com menos de 20 meses de vida em comum)

Catarina Parr ficou viúva em 1547 após uma união de três anos e meio
Para saber mais
Seis mulheres de Henrique VIII. Antonia Fraser. Editora Record, 1996.

Autobiografia de Henrique VIII - com comentários de seu Bobo. Will Somers (cinco volumes), Margaret George. Nova Fronteira, 1993.
Bernard Cottret é professor de História e Escritor.
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