Reportagem
edição 60 - Outubro 2008
Hollywood a serviço do pentágono
Há mais de 90 anos o Departamento de Defesa orienta a produção dos filmes de guerra americanos, que retratam os conflitos de acordo com os interesses estratégicos da Casa Branca
por Victor Battaggion
© GERALD BLONCOURT/RUE DES ARCHIVES
Nos bastidores de O mais longo dos dias: em 1964, o produtor Darryl F. Zanuck filma in loco o desembarque das tropas aliadas na Normandia
Luz, câmera... ação! Há quase um século os produtores americanos despejam nas salas de cinema uma quantidade impressionante de filmes de guerra que fascinam espectadores em todo o mundo. Mas será que esses aficionados sabem que muitas dessas obras jamais veriam a luz do dia sem o apoio do Departamento de Defesa dos Estados Unidos? Que este, ao conceder ajuda às produções, cuida de sua imagem junto ao público, favorece sua política de recrutamento, exerce censura e apresenta a guerra como uma solução necessária?

Produzir um filme custa caro. Preocupados em economizar, alguns cineastas pedem todo tipo de ajuda ao Pentágono: imagens de arquivo, assessoria técnica, acesso a equipamentos de última geração, autorização para filmar em instalações militares etc. Para isso, os criadores submetem seus roteiros a um dos muitos escritórios do Pentágono responsáveis por fazer a ponte entre os militares e Hollywood. Após várias leituras atentas do roteiro, os oficiais das Forças Armadas decidem dar ou não o sinal verde para a produção. Os termos da colaboração são então inscritos em um contrato restritivo: “A produção deverá ajudar os programas de recrutamento das forças armadas. (...) A companhia produtora consultará o Departamento de Defesa para todas as cenas militares durante a preparação, filmagem e montagem”. Segundo Philip Strub, assessor especial de mídia e entretenimento do Departamento de Defesa, “é nosso interesse participar da produção de filmes”.

As premissas dessa troca de gentilezas datam praticamente do nascimento do cinema, quando o clássico O nascimento de uma nação, de D. W. Griffith (1915), contou com assessoria técnica do exército americano. O primeiro escritório específico para o contato com Hollywood foi aberto pelo Pentágono nos anos 20. A primeira colaboração em grande escala data de 1927, quando as filmagens de Wings (Asas), de William Wellman, contaram com a participação de um conselheiro técnico militar da divisão aérea do exército de terra.
1 2 3 4 »
Victor Battaggion é jornalista e colaborador da revista Historia.
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!