Reportagem
  
edição 60 - Outubro 2008
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Hollywood a serviço do pentágono
Há mais de 90 anos o Departamento de Defesa orienta a produção dos filmes de guerra americanos, que retratam os conflitos de acordo com os interesses estratégicos da Casa Branca
por Victor Battaggion
[continuação]

Nessa mesma veia patriótica, outra produção contou com total colaboração do exército, em 1970: o inacreditável Patton – Rebelde ou herói?, de Franklin J. Schaffner. Ao assistir a esses filmes, os americanos perceberam pouco a pouco que seus filhos estavam sendo massacrados do outro lado do Pacífico. O casamento entre o exército e Hollywood caminhava para o divórcio. O fracasso no Vietnã deu origem a uma série de filmes mostrando uma visão não idealizada da guerra. Em 1979, Francis Ford Coppola dirigiu o clássico Apocalypse Now. Inspirado no romance O coração das trevas, de Joseph Conrad, o filme relata a aventura do capitão Willard (Martin Sheen), incumbido de matar um “Boina verde” desertor, o coronel Kurtz (Marlon Brando), que liderava um exército de rebeldes. Coppola pediu auxílio ao exército americano para financiar os altos custos de produção do filme, mas sua solicitação foi recusada. O motivo? Pedir a um soldado que execute outro é contrário à ética militar. O Pentágono lhe pediu que mudasse a palavra “executar”, o que o obrigaria a transformar toda a história. O diretor não aceitou e partiu rumo às Filipinas para filmar algumas cenas, alugando material do exército do ditador Ferdinando Marcos.

Outra produção dessa mesma geração, embora mais tardia, denunciou a tragédia vietnamita sem a colaboração do Pentágono. Em 1968, Oliver Stone – ferido por duas vezes no Vietnã –, dirigiu Platoon. O filme, abertamente inspirado em sua experiência na linha de frente, mostra soldados americanos hesitantes, uma atitude inaceitável aos olhos do exército. O diretor teve de esperar dez anos para conseguir financiar seu filme, mas a espera valeu a pena: quando saiu, Platoon se tornou um verdadeiro sucesso. Desde então os americanos vêem com outros olhos os veteranos dessa guerra.

O divórcio entre Hollywood e o Pentágono, porém, não durou muito. Com a eleição do antigo ator Ronald Reagan para a Casa Branca, em 1982, militares e diretores afinaram novamente seus violinos. Segundo o presidente americano, a necessidade de combater a União Soviética era primordial, e Hollywood seguiu a diretriz: musculoso e armado até os dentes, Sylvester Stallone encarnou um soldado americano que vence sozinho a Guerra do Vietnã na série Rambo. Mais asséptico, mas igualmente eficaz, Top Gun, de Tony Scott (1986), marcou várias gerações. Com seus cabelos engomados e sorrisos carniceiros, os personagens do filme restabeleceram o prestígio do exército americano. O longa-metragem recebeu total apoio da Marinha, sob a condição de valorizar o papel dos militares que atuam em alto-mar. Top Gun fez tanto sucesso que o exército instalou escritórios de recrutamento na saída dos cinemas!
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Victor Battaggion é jornalista e colaborador da revista Historia.
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