Reportagem
  
edição 61 - Novembro 2008
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O bibliotecário de d. João VI
A vida de Luiz Joaquim dos Santos Marrocos mostra o cotidiano no Rio de Janeiro do início do século XIX...e como uma esposa e um bom cargo público levaram um português a defender a independência da colônia que desprezava
por Jean Marcel Carvalho França
[continuação]

O Rio de Janeiro pintado por Marrocos, no entanto, não obstante essas comemorações cívicas e outras de caráter religioso é uma cidade carente de divertimentos, em que os que tinham um par de patacas promoviam em sua casa partidas noturnas, por não haverem outros entretenimentos.

Malgrado, no entanto, essa carência de divertimentos, de vida social, Marrocos comenta que o Brasil é denominado com razão de terra dos vícios e da perdição e que muitas moças de Lisboa, quando se mudavam para o Rio de Janeiro, adotavam um mau procedimento e passavam a levar uma vida viciosa. Muitos cariocas, lamenta o bibliotecário, olhavam com desconfiança as moças de Lisboa, que já tinham no Rio de Janeiro a mesma reputação – má reputação – que as brasileiras tinham em Portugal.

Dizer mal dos portugueses, a propósito, tornava-se um hábito cada vez mais comum entre os brasileiros que, de dia para dia, observa Marrocos, estavam mais impertinentes no seu patriotismo. Em 1815, quando o Brasil foi promovido a Reino Unido de Portugal e Algarves, tal impertinência, segundo o bibliotecário, tornou-se excessiva, insuportável.

“Pelas gazetas que ultimamente remeti a vossa mercê, lhe será constante o brado que aqui se ouviu pela elevação destes Estados a Reino (...). O senado, que em tudo se quer distinguir, em tudo dá a conhecer que é Senado do Brasil e por isso fez a função mais porca, que eu não esperava ver. Em despique à mesquinhez do Senado, o Corpo do Comércio, todo bazófia, reserva para depois da Páscoa a sua função alusiva ao mesmo objeto, e em que prometem o maior aparato e grandeza, à imitação das Festas Reais de Lisboa.”

Esse lusitanismo ressentido de Marrocos aquiesceu com o passar do tempo, ao ponto de o imigrante romper com a família, apoiar o processo de Independência e, pelo que se infere da sua rápida ascensão nos quadros burocráticos do Brasil de d. Pedro I, abraçar de corpo e alma a nova pátria. O seu mau humor em relação a certos aspectos da vida carioca, contudo, não diminuiu. Enquanto durou a sua correspondência com os parentes lisboetas, o português não poupou censuras aos brasileiros, a quem tinha na conta de uma gente indigníssima, soberba, vaidosa e libertina. O país, também, nunca chegou a agradar-lhe completamente: as comidas típicas provocavam-lhe náuseas, os animais e insetos despertavam-lhe um verdadeiro horror, o alarido das ruas povoadas por negros desgostava-o.

Apesar de tudo isso, Marrocos foi ficando e nunca mais mencionou retornar para Portugal, país que também não tinha em alta conta. Ao descer ao túmulo em dezembro de 1838, o ex-bibliotecário era um homem realizado: tinha família grande, era Oficial-maior de Secretaria, pertencia à Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula e seu enterro tinha sido prestigiado por grande número de pessoas, entre as quais, certamente, muita gente graúda.
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Jean Marcel Carvalho França é professor do Departamento de História da Unesp e autor, entre outros livros, de Literatura e sociedade no Rio de Janeiro oitocentista (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1999) e Outras visões do Rio de Janeiro colonial (José Olympio, 2000).
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