|
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Reportagem |
|
|
| edição 68 - Junho 2009 |
 |
|
| O fogo domado pela cruz |
| A partir do século IV, as antigas orgias do solstício de verão, que antecediam a fartura da colheita no Hemisfério Norte, foram transformadas pela Igreja Católica em celebração do nascimento de João Baptista |
| por Pierre Paillard (Com redação de História Viva) |
 |
STUDIO FUGLSETH/SPAREBANKSTIFTELSEN DNBNOIR, NORUEGA |
 |
| Desde a Antigüidade a noite mais curta do ano é celebrada ao redor do fogo Bonfire, óleo sobre tela, Nikolai Astrup, 1926-28 |
 |
Com a evangelização da Europa, os cultos da Antigüidade à fecundidade e ao Sol, que aconteciam no dia do solstício de verão, foram integrados ao cristianismo. Passaram a acontecer no dia 24 de junho, festa do nascimento de São João Batista. Essa escolha não foi feita ao acaso e guiada apenas pela efeméride, ou seja, a suposta natividade do santo em seguida à noite mais curta do ano no Hemisfério Norte. Na verdade, João, aquele que purificava os judeus pecadores no rio Jordão, representa os elementos que governam as cerimônias solsticiais, a saber, o fogo e a água. Nos Evangelhos, João pronuncia as seguintes palavras: “Eu utilizo a água, mas aquele que vier depois de mim batizará com fogo”.
Se os ritos ligados à água praticamente desapareceram, a tradição do fogo se manteve e permanece como o aspecto mais pagão dessa festa, ainda que tenha sido motivo de incômodo debate na hierarquia da Igreja. O concílio do ano 452, por exemplo, reuniu os bispos da França e do norte da Itália em torno de alguns desafios, entre os quais agir contra os costumes pagãos. Atribuem-se a Santo Agostinho algumas prescrições anteriores ao concílio, visando fazer desaparecer as antigas superstições: “Que ninguém, na festa de São João ou em determinadas solenidades ligadas aos santos, se dedique a observar os solstícios, as danças e os cantos diabólicos”.
Mas as fogueiras, ainda que razoavelmente domadas pela cruz, permaneceram e se institucionalizaram na França medieval e na Europa moderna. Em geral, a cerimônia começava por uma missa dedicada a João Batista ou ao santo padroeiro da aldeia. Em seguida, a multidão saía em cortejo, exibindo estátuas religiosas sobre espécies de charretes. No mais das vezes, cabia ao padre ou equivalente católico a honra de acender os fogos. Em Paris, o rei tinha o costume de acender ele mesmo, na praça da Grève – hoje praça do Hôtel-de-Ville –, sempre depois de uma bênção preliminar das fogueiras, feita pela autoridade religiosa local. O último soberano a ter tido essa honra foi Luís XIV. |
|
1 2 3 4 5 » |
|
|
|
|
|
|