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Reportagem

O jeitinho do homem cordial

Publicado em 1936, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, tornou-se obra-chave de interpretação do país por identificar uma informalidade descompromissada com a ética, incompatível com a vivência democrática

Oscar Pilagallo
Divulgação
O historiador adaptou o método de Max Weber para descrever a realidade brasileira
Poucos conceitos se prestam a tamanha confusão quanto o de “homem cordial”, central no livro Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Logo após a publicação da obra em 1936, o escritor Cassiano Ricardo implicou com a expressão. Para ele, a ideia de cordialidade, como característica marcante do brasileiro, estaria mal aplicada, pois o termo adquirira, pela dinâmica da linguagem, o sentido de polidez – justamente o contrário do que queria dizer o autor.

A polêmica sobre a semântica teria ficado perdida no passado não fosse o fato de que, até hoje, muitas pessoas, ao citar inadvertidamente a obra, emprestam à noção de Buarque de Holanda uma conotação positiva que, desde a origem, lhe é estranha. Em resposta a Cassiano, o autor explicou ter usado a palavra em seu verdadeiro sentido, inclusive etimológico, que remete a coração. Opunha, assim, emoção a razão. O didatismo foi incluído numa nota na segunda edição, de 1947, bastante modificada, e que seria a definitiva, salvo por pequenas alterações posteriores.

Apesar do zelo do autor, no entanto, o equívoco persistiu. Afinal, o que haveria de errado na cordialidade brasileira, nesse sentido de afetuosidade típica de um povo? Não haveria nada condenável se a afabilidade se desse em ambiente privado, em relações entre familiares e amigos. A expressão “homem cordial”, a propósito, fora cunhada anos antes, por Rui Ribeiro Couto, que julgou ser esse tributo uma contribuição latina à humanidade.

O problema surge quando a cordialidade se manifesta na esfera pública. Isso porque o tipo cordial – uma herança portuguesa reforçada por traços das culturas negra e indígena – é individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio, ou seja, não se trata de um perfil adequado para a vida civilizada numa sociedade democrática.

A questão é lançada logo na abertura do capítulo que aborda o homem cordial. “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar”, afirma o ensaísta. “Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição.” Para o homem cordial, no entanto, há uma extensão natural entre os dois planos. A atitude se manifesta até na linguística, “com o nosso pendor acentuado para o emprego de diminutivos”. Se tal expressão já existisse, Buarque de Holanda certamente teria falado no “jeitinho brasileiro”, pela síntese involuntária que faz de suas ideias.
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Escrito em meados da década de 1930, Raízes do Brasil data de um período de transição política. A República Velha tinha ficado para trás, a ditadura varguista ainda não se instalara totalmente e a democracia formal era uma perspectiva remota. Desde o movimento modernista, no entanto, que na década de 1920 desferira um golpe contra a influência lusitana na cultura, intelectuais brasileiros procuravam uma identidade brasileira. O livro de Buarque de Holanda faz parte desse esforço, ao lado de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Como intérpretes do Brasil, ambos são gigantes, embora com visões divergentes: enquanto Freyre revela certa nostalgia da influência portuguesa, Buarque de Holanda se regozija por ela começar a ser superada.

Esboçado na Alemanha na virada da década de 1920, quando o autor lá morou trabalhando como jornalista, o ensaio dá pistas de como a convivência com o pensamento germânico influenciou o autor. Em Berlim, Buarque de Holanda tomou contato com a obra de Max Weber, um dos pais da sociologia, e adaptou seu método para descrever a realidade brasileira, numa obra que mistura, além da sociologia, história, antropologia e psicologia social.

Politicamente, Buarque de Holanda é mais lembrado como um intelectual simpático às esquerdas, em grande parte por ter sido, em 1980, membro fundador do Partido dos Trabalhadores, que nasceu à esquerda. Essa associação, porém, não reflete sua trajetória. Na época em que publicou Raízes do Brasil, quando os intelectuais costumavam se dividir entre integralistas e comunistas, Buarque de Holanda se manteve afastado dos extremos ideológicos, sempre defendendo uma democracia que representasse avanços sociais.

Na época, isso inexistia no país. “A ideologia impessoal do liberalismo democrático jamais se naturalizou entre nós”, escreveu. “A democracia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido. Uma aristocracia rural e semifeudal importou-a e tratou de acomodá-la, onde fosse possível, aos seus direitos ou privilégios.”

Passados mais de 70 anos, por mais que o Brasil tenha mudado, suas raízes continuam visíveis na informalidade descompromissada com a ética que ainda perpassa setores da vida pública. Mas não é só por isso que a obra merece ser (re)lida. Se o livro sobrevive com o frescor próprio dos clássicos é também porque Sérgio Buarque de Holanda, dono de um texto em que nada falta, nem sobra, se expressa com a elegância, a erudição e a sofisticação dos grandes escritores, que fazem tais predicados parecerem naturais.