Reportagem
  
edição 51 - Janeiro 2008
Os britânicos na armadilha iraquiana
Há 90 anos os ingleses se lançavam na mesma aventura que hoje obceca George W. Bush, cometendo os mesmos erros e inaugurando a era dos governos manipulados pelo Ocidente no Oriente Médio
por Rémi Kauffer
© COLLECTION ROGER-VIOLLET/AFP
“O governo que instalamos é de tipo britânico e sua língua é o inglês. Lá temos 450 agentes de execução para fazê-lo funcionar, sem nenhum responsável iraquiano. (...) Os 80 mil soldados que temos ali estão ocupados com tarefas policiais, não com a proteção das fronteiras. Eles mantêm o povo sob o nosso jugo. (...) Os iraquianos esclarecidos se sentem muito irritados por serem privados do privilégio de compartilhar a defesa e a administração de seu país. (...) Eles esperaram pela notícia de nosso mandato e a acolheram bem. (...) Agora, começam a duvidar de nossas boas intenções.”

Não, esse parágrafo não foi extraído de nenhum relatório contemporâneo de algum oficial do exército inglês servindo no Iraque. Ele foi escrito por Lawrence da Arábia em uma carta enviada ao chefe de redação do jornal The Times em 22 de julho de 1920. No entanto, tendo em vista o atoleiro no qual os americanos e ingleses se meteram no Oriente Médio depois da queda de Saddam Hussein, as linhas acima adquirem o status de uma verdadeira profecia. Outra carta de Lawrence, daquele mesmo ano, publicada na edição de 8 de agosto do jornal The Observer, pinta um quadro ainda mais sombrio: “O povo inglês foi presa, no Iraque, de uma armadilha da qual será difícil sair com dignidade e honra. (...) Quanto tempo ainda permitiremos o sacrifício de milhões de libras, de milhares de soldados do Império Britânico e de dezenas de milhares de árabes, em nome de uma forma de administração colonial que só beneficia seus administradores?”.

A aventura iraquiana da Inglaterra começou imediatamente após a declaração de guerra entre Istambul e Londres, em 5 de novembro de 1914. A Força D, pequeno corpo expedicionário constituído na Índia entre setembro e outubro daquele ano, desembarcou em 14 de novembro em Chat-al-Arab, o estreito onde os rios Tigre e Eufrates confluem antes de desembocarem no Golfo Pérsico. Foi a partir dali que as tropas comandadas pelo general Charles Townshend ocuparam o porto de Basra e marcharam sobre a Mesopotâmia, nome pelo qual a região onde atualmente está o Iraque era conhecida na época.
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Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia
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