Reportagem
  
edição 51 - Janeiro 2008
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Os britânicos na armadilha iraquiana
Há 90 anos os ingleses se lançavam na mesma aventura que hoje obceca George W. Bush, cometendo os mesmos erros e inaugurando a era dos governos manipulados pelo Ocidente no Oriente Médio
por Rémi Kauffer
BETTMANN/CORBIS – LATINSTOCK
Navio inglês avança pelo rio Tigre na ofensiva que conquistaria Bagdá em 1917
[continuação]

Os partidários da Rule Britannia mais estrita aproveitaram-se da morte de Maude para retomar seus interesses. Uma nova oportunidade surgiria para eles em março de 1918, com a nomeação de Percy Cox para o posto de embaixador em Teerã. Este deixaria em Bagdá uma equipe composta pelo novo comissário civil, seu adjunto Arnold Wilson, conhecido como “AT”, de caráter excessivamente rígido, e de Gertrude Bell, a secretária oriental para questões administrativas.

Em abril de 1920, a Conferência de San Remo submeteu o Iraque e a Palestina a um mandato britânico por decisão da Liga das Nações, ancestral da ONU que concedeu à França um mandato análogo sobre a Síria e o Líbano. Em agosto do mesmo ano, ao mesmo tempo que Lawrence da Arábia redigia seu protesto ao Observer, dos 534 funcionários de postos elevados no alto comissariado britânico na Mesopotâmia, apenas 20 eram iraquianos. Entre os subalternos a proporção era de 2.167 autóctones contra 1.831 indianos. Como se não bastasse o elevado número de estrangeiros na administração do novo Iraque, os britânicos também tentaram transferir o poder das tradicionais estruturas tribais para uma nova aristocracia local baseada no modelo inglês. Junte-se a isso o fato de os ingleses terem destituído uma série de notáveis iraquianos em quem não confiavam e outros erros do mesmo calibre e teremos a receita perfeita para a insurreição que eclodiu naquele ano contra as forças de ocupação.

Iniciado em junho, o levante estendeu-se por toda a região rural do Iraque, com exceção do Curdistão. À frente da revolta estava a maioria xiita, encabeçada pelos dignitários religiosos das cidades santas de Nadjaf e Kerbala, e as tribos beduínas, em particular as do médio Eufrates. A resposta inglesa veio na forma de uma repressão impiedosa, em uma operação na qual os aviadores da Royal Air Force não hesitaram em lançar sobre os insurgentes o famoso gás mostarda que tantos estragos havia causado no front europeu. A ação tinha o respaldo do próprio ministro inglês da Guerra e do Ar, Winston Churchill, que em maio de 1919 havia afirmado ser favorável ao uso do gás envenenado “contra as tribos não civilizadas”. Segundo ele, “a perda de vidas deveria ser reduzida ao mínimo. Inútil se servir unicamente dos gases mais mortíferos: podemos utilizar outros que provoquem um sério desconforto e permitam semear uma boa dose de terror sem causar efeitos permanentes graves sobre aqueles que podem ser atingidos por eles”.
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Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia
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