Reportagem
  
edição 51 - Janeiro 2008
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Os britânicos na armadilha iraquiana
Há 90 anos os ingleses se lançavam na mesma aventura que hoje obceca George W. Bush, cometendo os mesmos erros e inaugurando a era dos governos manipulados pelo Ocidente no Oriente Médio
por Rémi Kauffer
ILUSTRAÇÃO ERIKA ONODERA
[continuação]

A situação logo assumiria contornos de pesadelo: cerca de 9 mil mortos e feridos do lado árabe contra 1.500 a 1.800 do lado britânico, sem contar os 600 desaparecidos. Diante do desastre, Churchill começou a cogitar uma retirada das tropas de Sua Majestade. Militarmente, a situação melhorou a partir de setembro, com a reconquista das regiões a norte, oeste e leste de Bagdá, o que permitiu o isolamento da zona rebelde do médio Eufrates. Nesse contexto, os ingleses decidiram reorientar sua política em relação ao Iraque e para isso sir Percy Cox foi chamado de volta às pressas, em outubro de 1920, para assumir o posto de alto-comissário no lugar de Arnold “AT” Wilson.

Partidário de um “autogoverno” árabe (“de fachada”, precisaria em suas cartas), Cox encarregou, em 11 de novembro de 1920, um notável bagdali, Mohammed al-Kailani, da formação de um gabinete autóctone, o primeiro governo árabe no Iraque desde o saque de sua capital pelos mongóis, em 1258. A iniciativa, naturalmente, tinha segundas intenções: o objetivo dos britânicos era contemplar seus fiéis aliados hachemitas. Em julho de 1920, Faissal, terceiro dos quatro filhos do xerife de Meca, havia sido expulso do trono da Síria pelo exército francês três meses após sua coroação em virtude dos acordos Sykes-Picot e da Conferência de San Remo. Imediatamente, Londres procurou um reino substituto para esse fiel aliado. Inicialmente a Mesopotâmia estava prometida para o filho mais velho do xerife de Meca, Abdallah, mas como este havia montado por conta própria um feudo na Transjordânia (ver glossário), o futuro Iraque surgiu como uma ótima opção para contemplar Faissal.

A política do Império Britânico para o Oriente Médio foi sacramentada em uma conferência realizada em março de 1921, na cidade do Cairo, no Egito, sob a presidência do recém-empossado secretário de Estado britânico nas Colônias, Winston Churchill. Foi essa reunião que definiu a divisão de poderes na região: para Abdallah foi dada a coroa da Transjordânia, para Faissal, a do Iraque. Agora, só restava garantir o aval dos próprios iraquianos para a decisão. Essa, porém, não seria uma tarefa fácil, como bem observou o perspicaz secretário de Estado para a Índia, Edwin Montagu, já que os funcionários britânicos no Iraque continuavam a privilegiar a minoria sunita em detrimento dos xiitas, sempre muito renitentes, e a usar os curdos como “tampão” face aos turcos, confinando-os nas regiões montanhosas.
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Rémi Kauffer é professor do Instituto de Estudos Políticos de Paris e membro do comitê editorial da revista Historia
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