Reportagem
  
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Os cultos e refinados Filisteus
A Bíblia os descreveu como um povo belicosoe bárbaro, mas os arqueólogos têm uma opinião bem diferente acerca desses antigos habitantes de Canaã
por Elisabeth Yehuda
₢ IRINA EFREMOVA/DREAMSTIME
Nas paredes construídas por Ramsés III, hieroglifos recontam as disputas do século XII a.C.
[continuação]

Em finais do século XII a.C., o faraó Ramsés III ergueu o templo mortuário em Medinet Habu. Ali, o governante quis perpetuar seu nome e feitos heróicos e, para tanto, decorou as paredes externas do mausoléu com preciosos relevos, representando as cenas de suas inúmeras glórias. Os frisos são acompanhados de textos explicativos, que descrevem minuciosamente cada uma das batalhas vencidas. Entre eles, a história das pelejas contra os povos do mar.

Por volta de 1190 a.C., no oitavo ano de reinado de Ramsés III, o Egito foi atacado por uma coalizão de povos marítimos. O faraó massacrou os invasores e contabilizou uma retumbante vitória. Entre os derrotados, havia tribos de nomes tão sonoros como Thekker, Shekelesh, Denyen, Wesheh e Peleset. Os estudiosos concordam que estes últimos são idênticos aos filisteus da Bíblia.

O quadro é complementado pelo Papiro Harris, uma crônica da época de Ramsés IV – aproximadamente 1153 a.C. –, que detalha ainda mais os conflitos bélicos ocorridos durante o reinado de seu predecessor. Os documentos relatam o massacre empreendido por Ramsés III. Vencidos e aprisionados, os filisteus foram levados à força para guarnições no Egito.

Mas a dúvida permanece: até que ponto os construtores de Medinet Habu e os escribas do papiro foram fiéis à realidade? Afinal, a narração de batalhas indecisas ou de vitórias dos rebeldes não seria benéfica à gloriosa memória do faraó. A ciência concorda que a questão é controversa. Há décadas, os estudiosos discutem o teor de verdade dos textos. Parte dos pesquisadores argumenta que não há exageros nos relatos, e que o faraó egípcio teria, de fato, trucidado os filisteus e colonizado as guarnições com os sobreviventes. As imagens e a narrativa que chegaram à atualidade demonstram que os povos do mar não avançaram rumo ao Egito somente com seus exércitos, mas com carruagens cheias de mulheres e crianças. Porém, se populações inteiras se mobilizaram em direção a terras estrangeiras, tendo sido interceptadas pelos egípcios e obrigadas a se estabelecer nos domínios do faraó, algum vestígio concreto dessa colonização deveria permanecer. E o Egito não guarda remanescentes da cultura filistina, que aparece mais nítida em outros locais.
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Elisabeth Yehuda É arqueóloga do Instituto Israelita de Arqueologia
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