Reportagem
edição 6 - Abril 2004
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Picasso, o criador absoluto
O pintor espanhol foi considerado egoísta, mesquinho e até perverso. Entretanto, com sua genialidade, e liberdade soberana, o criador do cubismo mudou a face da arte
por Pascal Marchetti-Leca
[continuação]

Após uma temporada em Gosol, região espanhola em que ele se abastece, junto com Fernande, de ar fresco, cores e luminosidade, Picasso trata de ampliar as formas. Fortemente influenciada pela arte ibérica, sua obra revela, desde 1906, um primitivismo consentido. Ao retornar novamente para Paris, ele se fecha em si mesmo e, distante dos olhares, dedica-se a uma tela que assinalará o rompimento do artista com quatro séculos de estética.

Em 1907, as portas de seu ateliê são abertas e revelam as ilustres Demoiselles d'Avignon. A reprovação é unânime. Acompanhado por Guillaume Apollinaire, Félix Fénéon, crítico da La Revue Blanche, adentra a rua Ravignan. Ele considera longamente a tela e diz: "É interessante, rapaz, você deveria se dedicar à caricatura!". O colecionador Leo Stein julga o quadro uma "terrível confusão". Derain, por sua vez, faz comentários sombrios e visionários. Mais prosaico, o escultor Manolo pergunta: "Responda-me, Pablo, o que você diria se um dia fosse buscar seus pais na estação e eles chegassem com esse tipo de coisa?". Georges Braque, companheiro da iminente corrente cubista, fulmina: "Escute. Apesar de tuas explicações, é como se você quisesse nos fazer comer estopa ou beber petróleo para que cuspíssemos fogo".

Neste concerto de reprovações há uma única exceção: a adesão imediata de um jovem colecionador alemão, Daniel-Henry Kahnweiler, que se tornará um dos maiores marchands do século XX. Talvez ele tenha sido o único a compreender o atestado de nascimento da pintura moderna.

O escândalo suscitado pelas infernais Demoiselles não deteriora porém as amizades de Picasso nem diminui seu ardor pelo trabalho. Manolo, Jacob, Apollinaire e Jarry continuam a freqüentar o Bateau-Lavoir. Durante o resto do tempo, Fernande e Pablo vão até a Closerie des Lilas para participar dos saraus literários de um apaixonado grupo, o Verso e Prosa.
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Pascal Marchetti-Leca é professor na Universidade da Córsega e autor de Innominata (Dcl, 2001).
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