Reportagem
  
edição 28 - Fevereiro 2006
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Quando copiar era um estímulo intelectual
Era a biblioteca, e não a igreja, o local mais provável de encontrar um monge copista na Europa medieval. Copiando às vezes para fugir do tédio, eles acabaram preservando a cultura ocidental.
por Pierre Riché
[continuação]

Jamais será excessivo insistir sobre o prodigioso trabalho dos scriptoria carolíngios. Milhares de manuscritos foram recopiados - quase oito mil foram conservados: as obras dos fundadores da Igreja, de gramáticos, poetas, prosadores. Graças aos copistas, uma grande parte da herança literária latina foi salva e preservada. Cícero, Virgílio, Tácito e muitos outros só se tornaram conhecidos pelo trabalho dos carolíngios.

Ao mesmo tempo, os escribas e os pintores fabricavam manuscritos de luxo. Na corte carolíngia, as bíblias, os evangeliários e os livros de salmos, ricamente adornados com iluminuras, eram depositados e preservados na capela real. Carlos, o Calvo, neto de Carlos Magno, foi um entusiasta dos belos manuscritos. Quando esteve em Roma para receber a coroa imperial das mãos do papa João VIII, levou de presente uma Bíblia magnífica.

As bíblias de Tours estão entre as mais belas editadas naquela época. Na Alemanha, os mosteiros de Saint-Gall, Reichenau e Fulda também possuíam equipes de escribas e de pintores.

Enquanto sob Carlos Magno os escribas recopiaram, sobretudo, obras religiosas, foi sob seus sucessores, Luís, o Pio, e Carlos, o Calvo, que ocorreu o que ficou conhecido como o "segundo Renascimento carolíngio", quando os autores profanos tiveram uma importância até então desconhecida, como os textos de César e Seutônio.

Nessa época, certos manuscritos eram sobrecarregados de sinais, chamados de "neumas", ou seja, notas musicais que permitem cantar o texto. Os monges as utilizavam para o canto a capela, mas também o faziam os alunos das escolas, para decorar os poemas dos salmos. A divisão do império carolíngio entre os netos de Carlos Magno - ocorrida na segunda metade do século IX - e as invasões normandas seguidas das húngaras complicaram a vida monástica. Mosteiros caíram nas mãos dos aristocratas laicos, ou foram arruinados pelos invasores. Muitos monges escaparam carregando relíquias e manuscritos para locais onde puderam se refugiar, sobretudo na região da Borgonha.
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Pierre Riché é professor emérito de História Medieval na Universidade de Paris X, Nanterre; publicou livros relacionados à História da cultura e da educação na idade média ocidental, entre eles, La Vie Quotidienne dans L´Empire Carolingien ( Paris, 1973).
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