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Reportagem |
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| edição 28 - Fevereiro 2006 |
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| Quando copiar era um estímulo intelectual |
| Era a biblioteca, e não a igreja, o local mais provável de encontrar um monge copista na Europa medieval. Copiando às vezes para fugir do tédio, eles acabaram preservando a cultura ocidental. |
| por Pierre Riché |
[continuação]
Uma vez preparado, o pergaminho recebia um acabamento: uma grande folha podia ser recortada em quatro pedaços (de onde vem a expressão in quarto), ou em oito (de onde vem a expressão in octavo). Esses pedaços podiam ser encadernados em formatos pequenos, que continham um número maior de fólios. Mais tarde, o pergaminho foi apresentado em forma de rolo, como os antigos volumina, sobretudo para usos litúrgicos.
O escriba sentava-se num banco, os pés pousados sobre um escabelo. Colocava o pergaminho sobre os joelhos ou, ainda melhor, sobre uma escrivaninha. Na mão direita, segurava a pena que molhava no tinteiro. Ele podia ter uma raspadeira na mão esquerda. Um manuscrito de Bamberg mostra as etapas do trabalho do escriba em pequenos desenhos. Ele talhava a pena, escrevia seu rascunho numa tabuinha de cera. Essas tabuinhas sempre foram utilizadas na Idade Média, e se acompanhavam de estiletes de metal, que tinham uma ponta de um lado, e na outra uma parte achatada para apagar a escrita. No lugar da tabuinha de cera, o escriba podia usar um velho manuscrito ou, ainda melhor, escutar o ditado do leitor.
Antes de começar, o escriba experimentava a pena, ao traçar algumas letras do alfabeto nas margens, ou os primeiros versos de um salmo. Pode-se também encontrar reflexões pessoais do tipo: "Como o pergaminho é felpudo"; "Como está frio hoje"; "A lâmpada emite uma luz ruim"; ou, ainda, "Agora é a hora do almoço". Como o silêncio devia reinar no scriptorium, pode-se imaginar os escribas passando essas reflexões, uns para os outros.
O trabalho era difícil durante o inverno, sobretudo pela penumbra. Por causa do esforço de olhar fixamente os manuscritos, os monges poderiam ficar cegos. Aquele que ditava o texto, o dictator, o fazia com rapidez. Os monges tinham dificuldade de seguir o ditado.
Raramente o escriba trabalhava sozinho. A arrumação do mosteiro de Saint-Gall previa sete assentos no scriptorium. Apesar de os nomes não serem registrados, era muito fácil reconhecer a mudança da mão. A duração da execução de um livro variava segundo a habilidade dos copistas e os mais hábeis se vangloriavam de fazer um livro em dois dias ou de copiar 30 folhas por dia. Em geral, era preciso dois a três meses para copiar um manuscrito de dimensão média. Depois do manuscrito terminado, era necessário reler e corrigir os erros. Muitos escribas eram inexperientes, alguns quase analfabetos, e recopiavam os textos de uma maneira automática, sem compreender seu conteúdo. Aqueles que escreviam a partir do ditado acabavam usando uma ortografia fonética.
O chefe do ateliê revia o manuscrito. Um bom revisor corrigia a pontuação e a ortografia, sublinhava uma palavra incompreensível e marcava a margem com a palavra que julgava conveniente e adequada. Depois do término do manuscrito, se fosse um livro luxuoso de salmos ou um evangeliário encomendado por um bispo, ou por um príncipe, o pintor sucedia o escriba. Ele decorava as iniciais, enquadrava as páginas, pintava o que ficara em branco, segundo seu próprio talento ou segundo o estilo da escola onde fora formado. Temos então o manuscrito copiado, corrigido e ornamentado.
Em seguida, era necessário reunir as folhas, formar os cadernos para fazer um códice. Sobre o desenho já citado de Bamberg, pode-se ver o monge dobrar, costurar as folhas, cortar e depois preparar as encadernações. Desde a época carolíngia, a encadernação era utilizada para os livros valiosos, e era feita com peles de cervos. Assim, Carlos Magno autorizou os monges de um mosteiro francês a caçar cervos para criar um estoque do couro destinado à encadernação. A superfície lisa das encadernações era confiada a ourives, ou a artesãos que trabalhavam com marfim. |
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| Pierre Riché é professor emérito de História Medieval na Universidade de Paris X, Nanterre; publicou livros relacionados à História da cultura e da educação na idade média ocidental, entre eles, La Vie Quotidienne dans L´Empire Carolingien ( Paris, 1973). |
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