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Reportagem

Samurais, o fim de uma era

Em 1877, na tentativa de modernizar a sociedade japonesa, o exército imperial eliminou os samurais, pondo fim a uma época lendária.

Eric Meulien
Desde 1873, os samurais se viram às voltas com a crise mais grave de sua história. A abertura do Japão ao Ocidente subverteu o equilíbrio político e sociológico do arquipélago. Ao cabo de uma guerra fratricida, eles elevaram ao trono, em 1868, o jovem imperador Meiji (1852-1912). Uma vez instalado, este lhes recusou o direito de conservar suas tradições seculares e preferiu cercar-se de conselheiros vindos da Europa e da América. As ruas de Tóquio formigavam desses "bárbaros de nariz comprido", metidos em seus trajes escuros. Desconfiada a princípio, aos poucos a população passou a apreciar as novidades tecnológicas: o telégrafo e, depois, a estrada de ferro se desenvolveram rapidamente. Contraste espantoso: aqueles empresários vindos de Londres e Paris cruzando com grupos de ronin (samurais sem senhor) envergando seu jukata (quimono) e trazendo à cinta os dois sabres (o katana e o wakizashi, mais curto) dos bushi (guerreiros).

Mais de mil castelos foram destruídos por ordem imperial. Os grandes senhores, despojados de suas terras, abandonaram mais de um milhão de samurais, que se aglutinavam sem renda nos subúrbios das grandes cidades. A nova administração aconselhou-os a reconverter-se à agricultura, ao artesanato ou ao comércio. Eles se exilavam aos milhares na ilha de Hokkaido, ao norte, com a esperança de criar fundos agrícolas. Infelizmente, as terras virgens ofereciam poucas riquezas aos recém-chegados.

O ministro da Guerra, Saigo Takamori, cercado de um punhado de veteranos, defendeu-lhes a causa junto ao imperador. Em vão. No entanto, bastaria uma expedição militar no estrangeiro para contentar a imensa classe dos samurais.

Nesse momento, aliás, uma missão diplomática nipônica estava sendo maltratada na Coréia. Saigo defendia uma intervenção direta. Mas o imperador não era da mesma opinião. Os conselheiros que mandara estudar em diversas partes do mundo lhe descreviam com admiração a superioridade técnica e industrial da Europa e da América. Para eles, o Japão não era suficientemente forte; prova disso fora o malogro da invasão de Formosa (Taiwan) em 1873. Do mesmo modo, a lembrança da derrota do exército chinês contra os europeus na guerra de 1860 incitava à prudência.
Saigo Takamori e seus companheiros deixaram então o governo. Renunciaram à política e regressaram à sua Kyushu natal, a grande ilha do sul do arquipélago. Instalado em Kagoshima, Saigo consagrou-se à gestão de uma das últimas escolas do Japão onde se ensinavam as tradições a jovens filhos de samurais. Desse modo ele retomava a própria essência do bushido.

Kyushu era o berço da ética samurai. Codificados no início do século XVIII, os preceitos do bushido impunham ao guerreiro qualidades de abnegação, paciência e generosidade, frugalidade e coragem. Em contrapartida, o samurai defendia uma arte de vida refinada na qual se mesclavam a caligrafia e a estampa, a cerimônia do chá, a arte do buquê e do teatro. À sua pessoa estavam associadas ao mesmo tempo a força do sabre (katana) e a fragilidade da flor de cerejeira (sakura). Saigo contava assim formar uma nova geração de guerreiros, capaz de resistir à influência européia. Uma primeira revolta eclodiu em Saga, ao norte de Kyushi, em 1874. Contra toda expectativa, não foi Saigo quem assumiu a chefia dos rebeldes, mas o ex-ministro da Justiça, Etô Shimpei. Ele reuniu mais de dois mil ronin, que atacaram bancos e repartições do Estado. A ação combinada da polícia e do exército pôs em fuga os saqueadores. Capturados em Kagoshima, foram condenados e executados. A cabeça decapitada de Etô Shimpei ficou exposta a fim de serenar aquele tempo de transformações.

O ano de 1876 iria conhecer duas reformas que haveriam de precipitar a fratura entre a velha classe dos bushi e o governo moderno. Visando limitar a ameaça de uma nova revolta, o governo Meiji reservou o uso do sabre apenas aos oficiais do exército. Os samurais, que já haviam perdido seus feudos e privilégios, deviam agora abandonar o próprio símbolo de sua existência. Além disso, sua única fonte de renda, proveniente das pensões pagas pelo governo, foi substituída por um sistema de títulos cujos juros irrisórios mergulharam na pobreza grande parte dos ronin. Por si só, o pagamento das pensões representava um terço dos gastos do Estado, que logo se viu obrigado a optar entre investir na indústria nascente e manter a lembrança de um passado guerreiro obsoleto.

No mês de julho, em Kyushu, 200 samurais agrupados numa confraria batizada de kamikaze, em honra ao vento divino que salvara o Japão medieval de uma invasão mongol, atacaram o castelo de Kumamoto. Armados apenas com seus katana, lançaram-se ao assalto da fortaleza. O fator surpresa permitiu-lhes penetrar no pátio do forte. A despeito de suas armas modernas, a princípio os soldados imperiais depararam com dificuldades para resistir. As perdas foram pesadas de ambas as partes, mas finalmente os rebeldes tiveram de capitular. Recusando-se à desonra do cativeiro, suicidaram-se segundo o rito tradicional (seppuku), sob os olhares atônitos dos jovens recrutas do exército imperial. Pela primeira vez, simples soldados derrotaram guerreiros temíveis.
Em outubro, 400 samurais comandados pelo ex-ministro da Guerra, Maebara Issei, se viram derrotados diante do castelo de Hagi. Dessa vez, os atacantes morreram antes mesmo de alcançar as muralhas. Os sobreviventes foram executados no local. Ante a ameaça de uma insurreição geral, o governo decidiu transferir o importante arsenal de Kagoshima para Osaka. Em 30 de janeiro de 1877, um navio adentrou a baía com a missão de embarcar as armas e munições do arsenal. Mas, informados da operação, os alunos samurais de Saigo impediram a aproximação da embarcação. A tropa imperial bateu em retirada. Obrigado a escolher entre sua honra - o código ao qual obedecia proibia-lhe opor-se a seu soberano - e a de seus alunos, Saigo foi elevado a contragosto à chefia dos samurais. Embora não dispusesse de uma estratégia, teve de marchar sobre Tóquio. Esperava arregimentar a população no meio do caminho. De fato, durante as primeiras semanas, numerosos ronin aderiram ao movimento, e a revolta, denominada seinan, ganhou toda a província. Saigo, entretanto, teria de propiciar a seus homens uma grande vitória antes de negociar com o governo.

Espetáculo de uma outra época: a longa coluna avançava ao som dos tambores de guerra. As bandeiras tremulavam acima dos homens em armas. Os ferros das lanças e das alabardas apontavam para o céu. Todos se recordavam da história daqueles 47 ronin que em 1703, depois de vingar seu amo, se suicidaram sobre seu túmulo.

Desde então, em Tóquio, uma cerimônia comemorava anualmente esse sacrifício.
Em 22 de fevereiro, debaixo da neve, 15 mil guerreiros vestidos de armadura agruparam-se diante do castelo de Kumamoto. Os samurais dispunham de alguns velhos fuzis holandeses, mas não tinham munições. À frente deles, a guarnição de Kumamoto, comandada pelo general Tani Kanjo, compunha-se de recrutas armados com novos fuzis ingleses e carabinas importadas dos Estados Unidos. O sítio duraria 50 dias. Em vão.

No mês de abril, os rebeldes estavam ameaçados de cerco pelos reforços legalistas comandados pelo príncipe Taruhito Arisugawa Nomiya, ex-companheiro de armas de Saigo. Robert Neil Walker, rico comerciante inglês residente em Nagasaki, organizou o transporte das tropas legalistas para Kyushu. Após uma fuga de vários meses entremeada por sangrentas escaramuças, Saigo chegou a Kagashima com apenas 400 homens. O exército imperial também sofreu pesadas perdas, quase sete mil combatentes.
Ao raiar do dia 24 de setembro de 1877, os 30 mil soldados do príncipe Arisugawa cercaram os rebeldes no sopé do monte Shiroyama. Numa carga heróica, os últimos samurais pereceram de sabre nas mãos, na mais pura tradição do bushido. Entre eles Togo Sokuro, o irmão mais velho do futuro almirante vencedor dos russos em 1905.

O próprio Saigo foi ferido no quadril. Preferindo a morte à humilhação da captura, decidiu pôr fim aos seus dias de acordo com o rito seppuku. Seu lugar-tenente, Deppu Shinsuke, cortou a cabeça do último grande chefe samurai da história do Japão. Paradoxo: o sacrifício de Saigo Takamori conferiu à tradição samurai a força de uma lenda.

Morrer com honra

Sob um sol de chumbo, a luta está prestes a começar. A tropa imperial japonesa, fardada com uniformes ocidentais, ostenta um porte altivo. Alinhados diante de uma bateria de canhões vindos da Inglaterra, os soldados aguardam com angústia a ordem de atacar. Do outro lado da planície, os samurais em armaduras rutilantes se preparam. Armados de arco e sabres, comandados por Saigo Takamori, não passam de um punhado de homens contra os milhares de soldados imperiais. Em seus olhos se lê a determinação de quem está pronto para morrer com honra. Essa cena do filme O último samurai (2003), de Edward Zwick (disponível em DVD), evoca o derradeiro combate desses guerreiros lendários que se desenrolou em 1877, na mais pura tradição do bushido, literalmente a via marcial do guerreiro.

O Katana, a alma do guerreiro

Para um samurai, desembainhar o katana era um sinal de fraqueza. Um mestre de esgrima digno desse nome devia impor o respeito por seu comportamento. Uma centena de mestres ferreiros produz, ainda hoje, esses sabres que durante mil anos equiparam os samurais e se tornaram, a partir de 1600, objetos de arte. A fabricação dessas armas obedece a um verdadeiro cerimonial. O mestre ferreiro contenta-se em supervisionar o trabalho dos aprendizes. Dois domingos por mês, todos se reúnem diante da forja e trabalham o metal. O mestre só intervém quando a lâmina está pronta para ser temperada. Esse procedimento, chamado yakiire, constitui a fase mais delicada. A lâmina, que mede dois shaku (60,6 cm), comporta 15 camadas do melhor aço (tama-hagane). O corpo do sabre compõe-se de uma barra de metal mole recoberto por uma camada de aço mais duro, de modo a aliar a resistência e a flexibilidade requeridas pelo katana. Em seguida o mestre ferreiro se entrega à tarefa de polir o aço, terminando no hasaki (o gume), ao qual confere o poder de fender o ar, a seda e o ferro. Para rematar sua obra, o mestre grava na nakago (o cabo) da lâmina, em caracteres kanji, o nome do deus xintoísta da guerra, Hachiman. O samurai usava dois sabres, o katana e o wakizashi, mais curto, empregado nos combates em espaços confinados.

Os passos do Herói

1868
O imperador Meiji subiu ao trono graças a Saigo Takamori e aos samurais dos clãs Satsuma, Choshu e Aki

1869
Saigo foi nomeado conselheiro de Estado

1873
Pediu demissão do governo

1874
Abriu uma escola de samurais em Kagoshima

1877
Vencido, suicidou-se em 24 de setembro

Saiba mais

Bushido. Código dos samurais. Baseia-se em cinco valores: a lealdade ao senhor, a coragem, o senso de honra, a benevolência, a tolerência, e o seppuku.

Seppuku. Suicídio ritual dos guerreiros japoneses por abertura do ventre (hara-kiri). Para assegurar uma morte rápida, um assistente é responsável pela decapitação do candidato ao suicídio.

Ronin. Samurai sem senhor que aluga ocasionalmente seus serviços.