Reportagem
  
edição 63 - Janeiro 2009
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 »
Sons da velha metrópole
É possível capturar na história um momento especial, no qual a salada de sons musicais em São Paulo já não pôde ser vista como falta de personalidade. Ao contrário, tornou-se a própria base da identidade paulistana
por José Geraldo Vinci de Moraes
[continuação]

Ao favorecer relações e contatos entre a cultura popular italiana e a caipira, São Paulo revelava mais uma vez sua vocação para um intenso cosmopolitismo informal. A leva de migrantes que viria a seguir, em busca dos benefícios da industrialização, só fez aumentar o contingente de desenraizados que impulsionou o sucesso da música sertaneja na capital paulista.

CARNAVAL O samba e o carnaval paulistanos nos anos 30 também têm como característica marcante a diversidade. Extrapolando os limites dos seus núcleos negros originais (Barra Funda, Lavapés e Bexiga), os tradicionais cordões carnavalescos paulistanos do início do século XX multiplicaram-se por outros bairros. Surgiram nessa época o Geraldino, na Barra Funda; o Esmeraldino, na Pompéia; o Marujos Paulistas, no Cambuci; as Caprichosas, na Casa Verde; o Mocidade Lavapés e o Baianas Paulistas, no Lavapés; o Caveira de Ouro, em Pinheiros.

Emissoras de rádio e o poder público começaram a se interessar pelo carnaval. A primeira iniciativa da prefeitura foi um concurso de músicas e marchas nos moldes de eventos cariocas. Com relação aos cordões, a municipalidade começou por controlá-los sem muita rigidez no começo da década: cadastrava seus nomes, fichava seus componentes e carimbava seus estandartes. Entre 1934 e 1936, o prefeito Fábio Prado promoveu os primeiros concursos de cordões, oferecendo certa estrutura, premiação em dinheiro e taças. Os desfiles oficiais ocorreram entre as ruas Líbero Badaró e São Bento e chegaram a reunir 46 cordões.

Nos anos seguintes, diante da falta de incentivo da prefeitura, os concursos foram assumidos informalmente por algumas emissoras de rádio, como Record, Kosmos, São Paulo e Cruzeiro do Sul, que faziam seus próprios eventos. No fim dos anos 30, a Companhia Antarctica de bebidas também passou a promover concursos carnavalescos, no Parque Antarctica, instituindo ali a “Cidade da Folia”. Para os sambistas, a área tornou-se o principal centro de atividades do carnaval paulistano, tanto que algumas rádios chegaram a promover ou a ajudar os festejos na “Cidade da Folia”.
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 »
José Geraldo Vinci de Moraes é professor de História na Universidade de São Paulo (USP). Autor de Sonoridades Paulistanas (Funarte - 1997); Metrópole em Sinfonia (Estação Liberdade - 2000) e Conversas com Historiadores Brasileiros (Ed. 34 - 2002)
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!