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Reportagem |
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| edição 53 - Março 2008 |
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| Stalin: Uma lenda fabricada sob medida |
| Documentos revelam que até 1917, por trás da fachada de revolucionário exemplar, o líder soviético operou como agente da polícia secreta do czar |
| por François Kersaudy |
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©YEVGENY KHALDEI/CORBIS – LATINSTOCK |
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A versão dos biógrafos oficiais sobre a juventude de Stalin surgiu nos livros de história há mais de meio século. Em 21 de dezembro de 1879 nasceu Iossif (Josef) Vissarionovitch Djougachvili. Filho de uma autêntica família de proletários georgianos, estudou na escola religiosa de Gori, depois no grande seminário de Tiflis (hoje Tbilissi). Bom filho, bom aluno, bom cantor, bom esportista, grande leitor, grande poeta, grande organizador, grande orador, modesto, dotado de excelente memória, voz agradável e carisma sem igual, Josef, apelidado de “Sosso”, leu Karl Marx no original aos 16 anos – um feito para esse adolescente que não conhecia uma palavra de alemão. Nessa versão, aos 20 anos, Josef-Sosso Djougachvili, também chamado de “Koba”, já era um revolucionário experiente. Estava em todo lugar ao mesmo tempo: Tiflis, Batumi, Tchiaturi, Kutaisi, Baku... e nada acontecia sem que ele tivesse decidido e organizado.
Após várias detenções e fugas, foi preso em fevereiro de 1913, em São Petersburgo e deportado para Touroukhansk, próximo ao círculo polar; somente a revolução de fevereiro de 1917, quatro anos mais tarde, lhe permitiria entrar em São Petersburgo, onde retomaria suas atividades de agitador, propagandista e matador de mencheviques. Nesse período, Iossif Djougachvili viveu sob muitos nomes: Sosso-Koba-Ivanovitch-NijeradzeVassili, até o definitivo “Stalin” – o homem de aço...
Só se pode passar para o outro lado do espelho da vida do ditador russo antes de 1917 com a ajuda dos arquivos – e graças às testemunhas que escaparam do regime de terror e do culto à personalidade do “Pai dos Povos”. Josef Iremachvili pinta um retrato diferente: se ele é descrito como inteligente, dono de excelente memória e dotado para o canto, aparece também como taciturno, dissimulador, esperto, arrogante, intrigante, arrivista, brutal e dominador com seus camaradas. Mais: em 1899, o seminarista Djougachvili, tornado membro de um círculo revolucionário social-democrata, escondeu panfletos subversivos entre os objetos pessoais de seus companheiros e em seguida denunciou-os ao reitor. O dormitório foi revistado... e 45 seminaristas foram expulsos.
Após sua própria expulsão do seminário, tornou-se contador no observatório de Tiflis, emprego que lhe permitia dedicar-se a atividades de propaganda nos meios operários. Porém, os dirigentes social-democratas Noé Jordania e Sylvestre Djibladze logo perceberam que a propaganda do militante Koba era dirigida mais contra eles do que contra as autoridades czaristas, e o qualificaram de “caluniador e agente provocador”. Junto com um bandido armênio chamado “Kamo”, Djougachvili-Koba montou uma tipografia clandestina para produzir panfletos subversivos, convocando para uma grande manifestação em 1o de maio de 1901, uma provocação organizada por um oficial da Okhrana (ver glossário) chamado Samedov, que possibilitou a prisão de Victor Kournatovski, enviado de Lenin à região. |
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| François Kersaudy é professor da Universidade Paris I, especialista em história contemporânea e autor de Stalin pela coleção “2 euros” do Memorial de Caen |
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