Reportagem
  
edição 53 - Março 2008
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Stalin: Uma lenda fabricada sob medida
Documentos revelam que até 1917, por trás da fachada de revolucionário exemplar, o líder soviético operou como agente da polícia secreta do czar
por François Kersaudy
COLEÇÃO PARTICULAR
Leon Trotski: um dos inimigos políticos assassinados para apagar o passado de Stalin
[continuação]

O polonês Roman Malinovski era o principal agente da Okhrana infiltrado no partido de Lenin e ao mesmo tempo o favorito deste último: um duplo desafio para o antigo seminarista arrivista e vingativo que jamais suportou a concorrência... Vassili-Ivanov, passando por cima de seu agente de ligação da Okhrana, escreveu ao vice-ministro do Interior Zolotarev para lhe dizer que “Malinovski era de fato um partidário de Lenin e trabalhava mais assiduamente pela causa bolchevique que pela polícia”. Infelizmente, Zolotarev não era ingênuo, e escreveu na margem da carta: “Este agente deve realmente ser deportado para a Sibéria. Ele procurou por isto”.

Eis por que Koba-Vassili foi detido em 23 de fevereiro de 1913 e enviado para o exílio em Touroukhansk, próximo ao círculo polar, de onde não conseguiria voltar antes da revolução de fevereiro de 1917. Após a Revolução de Outubro, foi publicada em Moscou a lista dos 12 principais agentes da Okhrana infiltrados no partido de Lenin. Ela incluía um certo “Vassili”, cuja identidade não foi revelada. Vassili era mais um pseudônimo de Iossif Vissarionovitch Djougachvili-Sosso-Koba,Ivanovitch-Ivanov------Nijéradze-Totomiantz, que entraria para a história como Stalin.

Após a Revolução de Outubro, Stalin irá apagar os traços de um passado vergonhoso. Registrado em dossiês nos arquivos policiais de Gori, Tiflis, Baku, Batumi, Kutaïssi, Vologda, Narym, Irkoutsk, Moscou e São Petersburgo...

As lembranças dos companheiros de Lenin, assim como as biografias de Stalin escritas no decorrer da década de 20, desapareceram das bibliotecas soviéticas. Esse trabalho de obliteração se estendeu ao exterior, onde as referências constrangedoras ao passado de Stalin foram cuidadosamente amputadas dos documentos, dos livros e até dos jornais da época, um trabalho colossal que durou três décadas. Após 1926, Stalin pediu a historiadores dóceis e a alguns antigos cúmplices que escrevessem biografias em forma de panegírico, nas quais qualquer semelhança com fatos reais- seria puramente fortuita; também construiu no Kremlin um ateliê de falsificações de todo tipo, que inundou os arquivos com falsos relatórios da Okhrana, exaltando os méritos do grande revolucionário Koba...
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François Kersaudy é professor da Universidade Paris I, especialista em história contemporânea e autor de Stalin pela coleção “2 euros” do Memorial de Caen
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