Reportagem
  
edição 53 - Março 2008
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Stalin: Uma lenda fabricada sob medida
Documentos revelam que até 1917, por trás da fachada de revolucionário exemplar, o líder soviético operou como agente da polícia secreta do czar
por François Kersaudy
REPRODUÇÃO
Stalin e Gorki (à direita), em 1931. O escritor morreu de forma misteriosa em 1936, depois de se recusar a escrever uma biografia do ditador
[continuação]

Mas para que tudo isso fosse convincente, era preciso eliminar muitas testemunhas. É assim que veremos Iakov Sverdlov morrer de modo nada natural porque sabia demais; a estranha morte de Maksim Gorki, que se recusou a escrever a biografia do grande Stalin; e a eliminação do professor Sepp, pelo historiador que havia descoberto, nos arquivos da polícia de Batumi, o dossiê do agente Djougachvili-Ivanov, que havia entregue o documento a Beria, que chefiava a polícia secreta, e o levou a Stalin. O ditador teria afirmado então: “Não passam de bobagens, mas é preciso cuidar de Sepp”.

“Cuidaram” de muitas pessoas ainda. Uma coleção de documentos da Okhrana havia sido confiada para exame a um oficial muito competente do NKVD chamado Stein, que descobriu um dossiê do diretor adjunto da polícia do czar, Vissarionov. Ao folheá-lo, Stein encontrou um questionário no qual estava presa uma foto de Stalin jovem, e relatos destinados a Vissarionov, com a letra do ditador. Não se tratava do dossiê de Stalin, o revolucionário, mas o do agente provocador, que tinha trabalhado com zelo para a polícia secreta do czar.

Stein, assustado, foi a Kiev e mostrou o dossiê a seu antigo superior do NKVD ucraniano, V. Balitski, que tomou conhecimento do fato ao mesmo tempo que seu adjunto Katsnelson. Balitski e Katsnelson mostraram esses documentos ao general Iakir, comandante-chefe das forças armadas da Ucrânia, como também a Stanislav Kossior, membro do Politburo e homem forte da Ucrânia. Iakir fez seu relato ao marechal Toutkhatchevski, comandante-chefe do Exército Vermelho. Segundo Katsnelson, tudo isso os levou à decisão de preparar um golpe de Estado visando livrar o país do antigo agente provocador em 1937.

Mas aos militares faltou discrição. A polícia de Stalin era onipresente e eles foram presos uns após os outros. Foram acusados de conspiração com a Alemanha, produziram-se falsas provas e os militares foram executados; eliminaram também todos os que participaram do processo, dos juízes às testemunhas, passando pelos investigadores do NKVD, que poderiam ter visto certos documentos ou ouvido alguma confidência... Finalmente, Kossior foi eliminado, o mesmo ocorrendo com Balitski, Katsnelson e os membros de suas famílias.
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François Kersaudy é professor da Universidade Paris I, especialista em história contemporânea e autor de Stalin pela coleção “2 euros” do Memorial de Caen
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