Reportagem
  
edição 44 - Junho 2007
Toulouse-Lautrec o artista dos cabarés
O pintor que renegou o passado aristocrático de seus ancestrais e passou a vida retratando as dançarinas de Paris
por Pascal Marchetti - Leca
Acusado de “chafurdar na degradação”, o artista escandalizou a aristocracia, inclusive sua família. À esquerda, auto-retrato de 1880
Prostitutas, cabarés e cervejarias estão inevitavelmente associados ao nome de Henri de Toulouse-Lautrec, mas aquele que seria reconhecido por retratar a vida boêmia e sua degradação foi no início de sua vida um nobre. Herdeiro de uma linhagem aristocrática, ele nasceu em 1864, em um hotel familiar de Albi, no sul da França. Para seu primeiro filho, o casal Adèle-Zoé e Alphonso-Charles escolheu um nome que homenageava o conde de Chambord, último pretendente legítimo ao trono da França, a quem alguns já chamavam de Henrique V. Mas a família estava fadada ao desaparecimento: bem cedo, o pequeno da condessa Adèle apresentou uma debilidade óssea que comprometia perigosamente seu crescimento. Em torno dele, inquietação e perplexidade. “Estou mais disponível esses dias porque mamãe me tirou de meu professor para que eu siga o tratamento que já curou meu tio Charles. Estou bem aborrecido de mancar com o pé esquerdo, justo agora que o direito está bom”, rabiscou Henri à avó paterna, Gabrielle.

Mais sofrido, seu irmão menor Richard-Constantin não resistiu. Faleceu em 27 de agosto de 1868, com apenas 1 ano de idade. A condessa Adèle trancafiou-se em uma religiosidade sofrida, e sua piedade austera cada vez mais contrastava com a excentricidade ruidosa do marido. O conde sempre teve comportamento estapafúrdio: em plena viagem de núpcias, ele abandonou a mulher para caçar, uma de suas paixões. Também adorava se disfarçar e, quando ia a Paris, galopava paramentado como um cruzado medieval. Fatalmente, o vínculo entre eles se desfaria, e pouco depois da morte de Richard decidiram se separar.

A senhora Toulouse-Lautrec despejou então suas esperanças em Henri. Com ele e por ele, decidiu instalar-se em Paris, em um apartamento do hotel Pérey, na rua Boissy-d’Anglais. Com seu primo Louis Pascal, o menino freqüentou o prestigioso Liceu Fontanes, onde conquistou um primeiro prêmio em latim e grego. Lá conheceu Maurice Joyant, que seria seu amigo por toda a vida. Posteriormente, lançado à direção da galeria do bulevar Montmartre, Joyant apoiaria incansavelmente os pintores da vanguarda, como Pissaro e Gauguin, e pressionaria Lautrec a expor suas obras.

Ainda no liceu, surgiu a febre do desenho. Às margens de seus cadernos, que sua mãe fez questão de guardar desde 1873, inevitáveis frisos e croquis, repletos de pastéis e aquarelas. Porém, com a saúde sempre precária, Henri teve de interromper seus estudos. A família voltou a Albi, onde, assistida por preceptores, a condessa Adèle passou a dirigir o aprendizado do filho.
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Pascal Marchetti - Leca É professor da Universidade da Córsega
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