Reportagem
  
edição 44 - Junho 2007
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Toulouse-Lautrec o artista dos cabarés
O pintor que renegou o passado aristocrático de seus ancestrais e passou a vida retratando as dançarinas de Paris
por Pascal Marchetti - Leca
₢ COLLECTION ROGER - VIOLLET/AFP
Famoso por seus cartazes, Lautrec aparece nesta foto com um dos funcionários do Moulin Rouge
[continuação]

No Salão de 1884, ele fez um pastiche de Bois sacré, de Pierre Puvis de Chavennes. No mesmo ano, mudou-se para a casa de René Grenier, que havia conhecido no ateliê de Cormon. Estava, assim, finalmente alojado atrás dos grandes bulevares, onde ganharia notoriedade. O bairro era cheio de operários, pequenos comerciantes, aprendizes de pintura, mulheres e vadios. Uma sociedade trabalhadora, livre ou malandra. A esmo pelos bailes, bares e cabarés, Toulouse-Lautrec entreviu a fascinação. Pintou o rosto de Carmem Gaudin (ver quadro), Suzanne Valadon, Hélène Vary. Imortalizou as vedetes da época, como La Goulue, Valentin le Desosse, Aristide Bruant, Jane Avril, Yvette Guilbert. Distribuiu seu cinismo triste nos lugares de prazer de Montmartre, como o Café des colonnes, Le Mirliton e o Moulin de la Galette.

Arte desagradável
Em todo o lugar, Lautrec desnudava um instante verdadeiro, representava o abandono, fixava as misérias. O poder expressivo do seu traço remetia diretamente à interpretação psicológica dos modelos que ele surpreendia e revelava. Mas nem sempre a crítica foi benevolente com Lautrec. Ao contrário, alguns o acusaram de ser um “ser bizarro e contrafeito”, de “chafurdar na degradação” dos botecos ou, mais freqüentemente, de representar “o vício que deforma os rostos, embrutece as fisionomias e faz subir à face as feiúras da alma”. Lautrec desonrava, assim, uma das mais importantes famílias da França, e ela, por sua vez, o reprovava. Porém, seu tio Odon, admirador de pintura, escreveu à mãe do artista: “Henri faz pintura impressionista. Talvez faça seu percurso nesse gênero, mas será desagradável. Para mim, ele é o Zola da pintura!”.

Em 1891, Charles Zidler lhe encomendaria o primeiro cartaz para o Moulin Rouge. Influenciado pela estampa japonesa, entre um público completamente na sombra e uma silhueta fantasmagórica com saliências ossudas, Lautrec representou La Goulue tocando um instrumento, uma figura característica do naturalismo. A audácia da composição e o pleno domínio da técnica litográfica suscitaram o entusiasmo geral e a avidez dos colecionadores. Em dezembro de 1891, o retratista, satisfeito, escreveu à condessa: “Os jornais foram muito amáveis com seu filho” .

Em seguida, Lautrec iria radicalizar os princípios do sintetismo, movimento iniciado com Vincent van Gogh (1853-1890) e Félix Valloton (1865-1925): estilização dos tipos, fantasia do enquadramento, contraste das cores, firmeza dos contornos e desenvolvimento do arabesco. Lautrec se impôs como o pai do cartaz moderno e, desenvolvendo uma atividade colossal, trabalhava sem parar. Pintava, expunha, ilustrava programas de teatro (Théâtre Livre e Théâtre de l’Oeuvre) e canções (Maurice Donnay). Colaborava com diversas revistas (Le Figaro Illustré, La Revue Blanche) e realizava coletâneas de litografias, uma dedicada a Yvette Guilbert (1894), outra intitulada Elles (1896), sobre a vida das prostitutas.
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Pascal Marchetti - Leca É professor da Universidade da Córsega
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