Reportagem
edição 99 - Janeiro 2012
Uma ponta de estoque nazista
Folheto de 1926 anunciando roupas e equipamentos do Partido de Hitler como artigos esportivos revela a reorganização militar da Alemanha no período entreguerras
 
(C) Roger-Viollet/AFP
Artigos esportivos? Membros das tropas de assalto do Partido Nacional Socialista desfilam em Berlim vestidos com o uniforme da organização em 1925
por Annie Poinsot

Em 11 de dezembro de 1926, o comissário especial adjunto da cidade de Lauterburgo, na fronteira entre a França e a Alemanha, escreveu um relatório ao diretor de Serviços Gerais da polícia da Alsácia e Lorena: “Tenho a honra de enviar-lhes em anexo a folha de propaganda de equipamentos das sociedades nacionalistas alemãs, que se encontram hoje em Lauterburgo no trem Ludwigshafen, nº 566, compartimento de 3ª classe. Nenhum viajante alemão encontrava-se no compartimento e não pude identificar por meio de quem essa folha foi colocada nesse trem”.

Os comissários especiais das estradas de ferro eram uma espécie de ancestrais dos funcionários do Serviço de Informações Gerais da França. Eles exerciam uma verdadeira vigilância política de todo o território francês. De 1915 a 1936, seus relatórios, assim como os dos representantes diplomáticos, além de recortes de jornais, panfletos, cartazes, folhetos e fotografias sobre a Alemanha do período entreguerras, foram reunidos pelo Serviço de Informações. Hoje, estão conservados nos Arquivos Nacionais franceses, na subsérie “Polícia Geral”.

Naquele ano de 1926, as manifestações dos partidários de Hitler multiplicavam-se, e a propaganda contra o Tratado de Versalhes ou a ocupação da Renânia era cada vez mais virulenta. A campanha, arma de guerra do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, na sigla em alemão, mais conhecido como Partido Nazista), visava particularmente as regiões da Alsácia e Lorena.

Por isso, esse folheto de propaganda, encontrado em um trem no mesmo dia da publicação do segundo volume de Mein Kampf, é significativo. A começar pelo título: “Expedição de artigos esportivos”. Observadores da época registraram o incrível desenvolvimento de associações esportivas ou de ex-combatentes, que serviam como uma espécie de “cobertura” à reorganização militar da Alemanha. A descrição desses “artigos esportivos” é edificante: tecidos militares, grevas (faixas de proteção para a canela, usada em uniformes militares), mosquetões, insígnias oficiais etc. Não havia dúvidas: era Hitler que os vendia. Não se encomendava uma camisa do NSDAP, mas uma camisa, boné, casaco ou calça “Hitler”. A suástica aparecia em todos os formatos (emblemas, insígnias, estandartes ou lenços). E as entregas eram feitas em grande quantidade.

O Serviço de Informações francês recebeu uma série de notas e relatórios que descreviam as demonstrações de força dos nazistas e, posteriormente, sua ascensão ao poder. Dessa forma, o departamento acumularia testemunhos sobre o rearmamento, o antissemitismo ou o surgimento dos primeiros campos de concentração alemães. Na última caixa de arquivo que conservava esses documentos, encontram-se, datados de 1935, relatórios intitulados “Organizações e métodos da Gestapo no exterior”, “Constituição de novas unidades militares na Alemanha”, “Congresso mundial da liga antijudeus de Nuremberg”. Uma mostra de que já estava tudo a caminho.
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Annie Poinsot é conservadora da seção do século XIX dos Arquivos Nacionais da França
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