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Guru vodu
BNegão e os Seletores de Freqüência + Instituto
KVA, São Paulo, 26 de novembro de 2003

por Alexandre Matias

KVA cheio na medida, longe das muvucas que foram as apresentações da Nação Zumbi ou o encontro de Marcelo D2 com Bezerra da Silva. Os shows foram divididos nos dois palcos: no de baixo, o pop reggae comia solto para a alegria das loirinhas e dos moleques magrelas que se cumprimentam como "maluco" - no som, o Maskavo e outra banda que eu esqueci o nome. Lá em cima, as coisas ficariam bem menos amigáveis...

Não pelo clima, que parecia festa fechada - todo mundo era amigo, compadre ou pelo menos conhecido de quase todo mundo. Mas quando BNegão subiu no palco para lançar seu Enxugando Gelo em São Paulo, a praia ensolarada do andar debaixo começou a escurecer e a noite eterna pairou sobre as cabeças...

Expansão e retração

O caldeirão de ritmos começou no mesmo clima Antônio Conselheiro dub que abre o disco: "A consciência se expande... A consciência se retrai...", BNegão ia invocando os espíritos de nossos antepassados para uma congregação de groove. À medida que a banda ia afrouxando as tensões, via-se que os Seletores de Freqüência é formado por veteranos das trincheiras do underground carioca: na guitarra, Gabriel "Nareba" Muzak, ex-Funk Fuckers; no trumpete, Pedro Alcoforado, ex-PELVs; e no baixo e bateria, dois terços do Cabeça, a melhor banda de hardcore do Rio de Janeiro ("Tutupá-Tatutatutá" é um clássico esquecido pelo tempo), Kalunga e Pedro Garcia (ex-menino prodígio no antigo grupo, em que tocava quando tinha 13 anos), respectivamente.

Logo a sessão espírita rasta dá lugar à pulsação The One, iniciada com "Nova Visão", "Seletores de Freqüência" e "(Funk) Até o Caroço" (esta com BNegão na guitarra). E a casa vai abaixo. A primeira parte do show ainda traria a inesquecível "O Sósia", dos esquecidos Moleque de Rua, e terminaria com o vocalista explicando que a próxima música - um "trabalho de antropologia" - foi "traduzida de pinturas rupestres". Entra o funkcarioca "A Verdadeira Dança do Patinho", em que a banda flerta com seu lado rock pesado (o refrão com vocal de monstro é dispensável) para se entregar de vez no hardcore "Qual é Seu Nome?" - um obstáculo truculento que atrapalha o flow perfeito do disco de estréia do MC.

Priorizando a prioridade

Mas era na segunda parte do show que as coisas ficariam realmente pesadas. O lado funk aos poucos ia se fundindo com duas novas caras da banda, o reggae, anunciado no início, e o samba. Este último, o tal "fator de identidade nacional", deu o tom de dois momentos centrais da noite: "V.V.", em que Gabriel assumiu o cavaquinho para BNegão profetizar, na manha, que "tudo é vai e volta-á...", e "O Processo", cuja jam culminou com o vocalista conjurando o "Juízo Final" de Nelson Cavaquinho: "O sol há de brilhar mais uma vez/ A luz há de chegar aos corações/ Do mal será extinta a semente/ O amor será eterno novamente...". Encerrou o show com a reggaeira abnegada de "Prioridades" para ter certeza que suas pregações não funcionavam apenas como prenúncios apocalípticos - é preciso viver o que se diz, não apenas aceitar o dito.

Instituto

A banda carioca deixou a cena para os compadres paulistas assumirem o comando. Com Kamau e Marechal, ambos do Quinto Andar, no comando vocal, o Instituto começou a dissipar as nuvens negras do descarrego espiritual proporcionado por BNegão. O Instituto você já sabe: flautinha, tecladão, guitarra wah-wah, groove suave, beastie boy, funk de branco, vocal no sossego. No repertório dos novos vocalistas, hits prontos para atingir as massas como "Bom Dia" e "Vida de Rimador", além da série candidata a hit do verão, "Eu Não Sei Falar Disso", do Marechal.

E, pra variar, começam as participações especiais, com a única oficial, quando sobem Gaspar e Funk Buia, do Záfrica Brasil, para mandar "Tabocas", parenta do clima provocado pelo show de BNegão. Os outros comparecimentos aconteceram quase informalmente - Max B.O. e um outro carinha (que também tava no show dos caras no Blackalicious, e que manda benzaço no freestyle) subiam no palco música não, música sim. A vibe íntima da noite ainda fez com que o grupo intimasse Lúcio Maia e Pupilo, da Nação Zumbi, que estavam no meio do público, subissem para uma jam session com Ganjaman e o baixista Rian (o mesmo do Cidadão Instigado e outras trocentas bandas). O show terminou no improviso, tensão dissipada, mensagem assimilada.

No próximo, não falte.

# Alexandre Matias é editor do Trabalho Sujo