Batera do Fela Kuti quebra tudo e fala sobre o afrobeat
Por Thiago Lotufo
Quebradeira total. Assim pode ser definida a apresentação que o baterista Tony Allen fez no Sesc Pompéia no final de junho durante o Fórum Cultural Mundial. Quem compareceu, como a gente aqui da Radiola Urbana, pirou e facinho, facinho entrou em êxtase. Dizer que o cara é um gênio das baquetas é óbvio demais; redundância pura. Arrumar uma palavra melhor fica pequeno.
Vamos lá. Para quem não o conhece, a gente apresenta: Tony Oladipo Allen é um músico de finíssima qualidade. Nasceu em Lagos, capital da Nigéria (África), em 1940. Começou a tocar bateria aos 18 anos – aprendeu tudo de ouvido – e não parou mais. Seu grande feito na carreira foi ter criado juntamente com Fela Kuti o afrobeat, estilo que mistura funk, jazz, rhythm‘n’blues e ritmos tradicionais africanos como o juju. “O afrobeat é o som que eu sempre procurei e que sempre vou carregar comigo”, disse Allen em entrevista exclusiva ao Radiola Urbana.
EM PLENA FORMA
Aos 63 anos (completa 64 em agosto), Allen desembarcou pela primeira vez no Brasil para participar do Fórum. Fez dois shows em São Paulo (no Sesc Pompéia e no Sesc Itaquera) e participou de uma jam session no estúdio da gravadora YBrasil com músicos do Instituto, Otto, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Foi pouco tempo, mas quem assistiu às apresentações pôde conferir de perto que o cara continua em plena forma, dominando as baquetas como ninguém e destilando suas inimitáveis batidas quebradas.
Allen tocou profissionalmente pela primeira vez em 1960 quando entrou para os Cool Cats, uma banda nigeriana de highlife, ritmo que predominava no oeste da África (na área colonizada pelos ingleses) e que unia guitarras a um naipe de metais bem jazzístico. Detalhe: Fela Kuti já havia cantado nos Cool Cats antes de ir estudar em Londres, em 1958. Allen começou tocando teclado (vejam só!) e só foi assumir as baquetas meses depois com a saída do batera titular. Em 1961, a banda foi para o espaço. Allen, então, passou por mais três bandas até chegar 1964, ano que entraria definitivamente para a biografia do artista.
Foi em 64 que ele foi apresentado a Fela Kuti. Fela era líder do Koola Lobitos e estava atrás de um bom baterista que tocasse jazz e highlife. Já havia realizado diversas audiências e nenhum músico o satisfazia. Até que... tchan, tchan, tchan, tchan... encontrou Tony Allen. Após ouvi-lo tocar, Fela disparou: “Você é o único cara na Nigéria inteira que toca desse jeito”. Traduzindo, ele quis dizer algo do tipo: “Como é que você toca assim pra caralho?” .
DUPLA DINÂMICA
E aí já era. Juntaram a música com a vontade de tocar e não deu outra. Os dois formaram durante 15 anos uma das duplas mais importantes do cenário musical do século 20. O tranqüilo e taciturno Tony Oladipo Allen com o carismático e visionário Fela Anikulapo Kuti. Duas almas gêmeas – musicalmente falando – que se comunicavam por telepatia, como Allen conta na entrevista abaixo.
Em 1969, a turnê que o Koola Lobitos fez nos Estados Unidos (tendo como base Los Angeles) iria mudar a vida da dupla para sempre. O grupo excursionou por oito meses pelo país – tempo mais do que suficiente para que Fela entrasse em contato com as idéias de Malcom X, dos Panteras Negras e outras lideranças que defendiam os negros e o afrocentrismo. De volta à Nigéria, não deu outra: Fela radicalizou em suas posições políticas, trocou o nome do Koola Lobitos para Nigeria 70 e passou a experimentar ainda mais incorporando a sonoridade do funk em suas composições. Pouco adiante, ele ainda iria abrir o seu “club” – batizado de The Shrine – e ter o seu próprio estúdio. A banda, já com uma média de 20 componentes, passou a se chamar Afrika 70.
Nascia aí o afrobeat, um caldeirão de influências e transformações muito bem colocado sobre o fogo de um regime autoritário e sanguinário. Na década de 70, Fela e Allen eram unha e carne; uma combinação perfeita. “Fela escrevia as músicas para todos os instrumentos da banda, menos para mim”, conta Tony Allen. “Ele dizia que eu soava como quatro baterias.”
"NÃO VOU DAR AUMENTO PARA NINGUÉM"
A lua-de-mel entre os dois começou a ruir em 1974. Fela era um superestar, mas sua banda não recebia o devido reconhecimento – financeiro inclusive. Decidiram, então, fazer uma greve e não aparecer para um show que havia sido marcado. Fela foi incisivo: “Não vou dar aumento para ninguém. Se vocês quiserem continuar vai ser assim. Se não quiserem, eu arrumo outros músicos.” Mas disse também: “Se alguém de vocês quiser fazer suas próprias músicas eu dou todo o meu apoio.”
Foi aí que Tony Allen (Fela o chamava de Allenko) aproveitou a senha e partiu para a carreira solo em paralelo ao trabalho que fazia com Fela. Gravou três discos produzidos pelo próprio Fela ("Jealousy", "Progress" e "No Accomodation for Lagos") e tendo músicos do Afrika 70 como banda de apoio. Em 1978, o caldo desandou de vez e Allen achou que era o momento certo para cair fora e seguir seu próprio rumo. “Fela achava que tudo estava normal, mas ele não me dava o devido reconhecimento”, diz Allen.
O outono de 78 assistiu à última apresentação dos dois numa mesma banda: festival de jazz de Berlim, na Alemanha. Depois disso, cada um foi para o seu canto. Fela, mais adiante, iria montar o Egypt 80 e Allen lançaria o seu álbum "No Discrimination". Ele se mudou para Paris (onde vive até hoje) e durante a década de 80 sua carreira ficou um tanto apagada, lançando apenas um trabalho: " N.E.P.A." (Never Expect Power Always). Na década de 90, gravou "Black Voices" e, em 2002, lançou uma sonzeira em "Home Cooking".
O disco mistura rap, R&B e alguma coisa de eletrônica. Coisa fina. Mas com o afrobeat ali, sempre pulsando na base de tudo que ele faz. Destaque para as faixas "Home Cooking", um libelo contra a globalização, e "Don’t Fight Your Wars", que prega a paz acima de tudo (e olha que ele diz que não gosta de política!).
Leia entrevista com Tony Allen
Leia mais sobre Fela Kuti e afrobeat
Esta matéria foi publicada originalmente no site Radiola Urbana.