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Entrevista com Tony Allen

Por Thiago Lotufo

Radiola Urbana - Qual a sua expectativa para o show?
Tony Allen - Eu não sei. Esta é a minha primeira vez no Brasil. Não sei o que esperar.

O senhor imaginava que um dia tocaria no Brasil?
Claro que sim. Claro que sim. Eu sempre esperei tocar por aqui. Groove people.

Seus álbuns mudaram ao longo de sua carreira. O sr. incorporou ritmos novos...
Continua sendo afrobeat. Eu coloquei coisas novas, mas a base é o afrobeat. É a evolução do som, do estilo. Eu tento evoluir dentro do afrobeat.

O sr. acha que a evolução vem de ritmos como R&B, rap, música eletrônica?
Não, não. Eu ouço todos os estilos de música. Eu gosto de muita coisa. Não tenho um gosto particular por determinada coisa. Você tem que ouvir os outros para poder criar o seu próprio estilo.

O afrobeat é um ritmo muito poderoso e não dá para simplesmente esquecê-lo. Não é isso?
É isso. Não é como outras músicas como o rock e o reggae, por exemplo, que têm uma determinada batida. O afrobeat não é uma batida específica porque estou criando a todo momento, reinventando – especialmente quando fico entediado com determinada batida. Nos meus concertos, por exemplo, apesar de ser afrobeat, você não vai ouvir a mesma batida do início ao fim do show.

Como o sr. criou o afrobeat junto com Fela Kuti ? Vocês costumavam tocar jazz juntos nos clubs de Lagos...
Fela era o cara que eu procurava. Eu passei por várias bandas até encontrá-lo. Eu trocava porque não via evolução. E quando não vejo evolução me cansa e eu vou procurar outras pessoas. Fela foi a pessoa certa que me levou a expandir os limites de criação. Ele era um gênio e nós nos comunicávamos por telepatia.

Vocês se comunicavam por telepatia?
Com certeza.

Como o sr. o conheceu?
Foi uma baixista que eu conhecia que me apresentou a ele. Fela estava atrás de um bom baterista na Nigéria – ele tocava jazz naquela época. Ele procurou e disse que não havia um baterista bom no país. Até que este baixista disse: “Check somebody out first” (dê uma olhada em alguém antes) e depois você toma a sua decisão. Isto foi em 1964. E, desde emtão, começamos a tocar jazz juntos. Fela me perguntou onde eu havia estudado bateria. Eu disse: ‘Em nenhum lugar, aprendi aqui mesmo na Nigéria.’

O sr. aprendeu tudo de ouvido? Nunca teve aulas?
Nunca. Eu experimento bastante. A bateria não é um instrumento que não deve ter limites. Talvez, se eu tivesse tido aulas eu estaria limitado àquilo que o professor me ensinaria.

O sr. foi influenciado por bateristas como Art Blakey, Max Roach...
Sim. Fui. Eles foram os meus ídolos. Quando eu comecei a tocar eu queria tocar como eles. E consegui. Mas depois comecei a me perguntar: ‘Ok. Eu sei tocar como Blakey, Max Roach, Tony Williams, mas e eu? Quando vou tocar como Tony Allen? E o meu estilo?’

Foi por isso que mais para frente o sr. saiu do Africa 70?
Mas foi no Africa 70 que eu pude experimentar bastante, colocar minhas idéias para fora. Fela era um compositor genial.

O sr. também é...
É. Por isso a gente se comunicava por telepatia.

O sr. ficou triste quando vocês se separaram?
Não, porque ele continuou a ser meu amigo até os seus últimos dias. Algumas pessoas disseram que eu queria arruiná-lo, mas não é verdade. Ficamos 15 anos juntos e foi o suficiente. Uma hora tive de partir.

O sr. pode contar um pouco mais sobre o encontro com o James Brown e os JB’s?
Não conheci James Brown pessoalmente porque quando ele esteve na Nigéria não apareceu nos nossos shows. Apenas os seus músicos, como o Bootsy Collins.

E a história de que o diretor musical dos JB’s ficou colado na sua batera vendo o sr. tocar...
É verdade. Ele ficou ao meu lado durante um concerto. Observava como eu tocava e anotava num papel o estilo da minha batida. Eu vi aquilo e fiquei rindo. Ri muito de ver ele tentando anotar tudo aquilo.

O sr. costumava ouvir James Brown?
Sim. James Brown é um dos músicos que eu mais respeito. Todo mundo no meu país era fã de James Brown.

O sr. começou a tocar com 18 anos e agora já acumula quase 50 anos de estrada. O que você destacaria nesses anos todos de carreira?
A minha dedicação à música, ser um artista dedicado ao que eu acreditava. Quando você acredita no que faz, o resto é o resto.

E o sr. sempre acreditou profundamente na sua música?
Claro. Senão já teria parado.

Atualmente o sr. vive em Paris, mas ainda vai para a Nigéria com freqüência?
Estive no meu país a cinco semanas atrás. Sempre estou por lá.

E como o sr. vê o país atualmente comparando com os anos 60 e 70? O sr. acha que a Nigéria está melhor?
Não. Agora é uma loucura total. Mas eu não sou político e não quero falar sobre política. No passado, meu país era melhor. É verdade que os militares ficaram no poder por cerca de 30 anos e eu acho que a função deles não é dirigir um Estado, mas, sim, se preparar para a guerra.

Quer dizer que o sr. não gosta muito de falar de política?
Não gosto. Não sou político e odeio política. É um jogo sujo, muita corrupção.

Para finalizar, uma declaração que Tony Allen fez certa vez sobre tocar bateria: “Eu não sei ensinar alguém como tocar. A única coisa que eu posso dizer é que se alguém quer tocar como eu, não deve olhar para a bateria, mas, sim, para a sua própria cabeça. A bateria está aí, as baquetas estão aqui (nas mãos), mas você coloca para fora o que esta aqui (na sua cabeça). Se alguém quer tocar como eu tem que desenvolver esta habilidade”.

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Esta entrevista foi publicada originalmente no site Radiola Urbana.