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Aphrophunk Phuturista

"Tomorrow Right Now" (Warp, 2003)

por André Maleronka

O mundão colonizado por objetos onde estamos tem nos grandes centros urbanos as arenas do choque entre o presente e suas possibilidades latentes, o passado e o que é possível - é nas grandes cidades que o melhor e o pior se misturam, numa mixagem desigual e fragmentada. A merda é que o esquema de organização atual é não dar brecha pra expressão, criatividade ou arte fora dos circuitos da $. Por sorte (ou seria "a maravilhosa resistência do espírito humano?" há-há-há) esse casamento com a técnica e a informação não formou uma rede tão espessa ainda. Posto isto dá pra sacar que, desde sua origem, que foi eminentemente urbana, a música rap estadunidense tem apresentado algumas das melhores soluções de trilha sonora pra sobrevivência nas metrópoles. Se essa adaptação rola por causa dos motivos que engendraram o parto dessas canções ou do jeito como são construídas, como desvios de outras músicas, não é aqui que a gente vai analisar. Este espaço serve pra apresentar pra nossa real terceiro-mundista um dos mais recentes baús de possibilidades editados no centro do sistema.

Feijão Maravilha
Beans, o único moicano do rap, está de volta com "Tomorrow Right Now" (Warp Records), seu primeiro disco inteiramente solo. Do finado antipop consortium, grupo que apresentou o poeta/declamador lapidado na vanguarda artística underground nova-iorquina, comparecem os antigos companheiros Priest (sem rimar, só tocando a linha de baixo em "Roar", o som de abertura), e o "quarto antipop" Earl Blaize, mais uma vez envolvido na engenharia de som. O rapper Sayyid nem dá as caras, dando mais pistas pras especulações sobre os motivos de dissolução do combo. Confiando na sua garganta e nos sub-graves, Beans vai mesmo, jogando nas 3 posições: rimando, programando e pilotando sozinho o sintetizador em praticamente todas as faixas. Pra dar uma noção, o mano Feijões tem um fôlego fantástico, que ele exercita em levadas tortas e rimas intrincadas - chamadas por ele na ficha técnica de "orações" - dando sequência à sua interpretação muito pessoal (pós-punk, dizem alguns) pros caminhos abertos pelos californianos do Freestyle Fellowship com seus raps encharcados de scats e pelo gênio distorcido Kool Keith. As batidas tão bem mais redondas do que as da era APC, mostrando que ele anda estudando seus discos do Brian Eno, mas sem arregar no front do eletrônico barulhento - provável razão da conquista do contrato com a Warp (lar do Aphex Twin). As instrumentais "Sickle Cell Hysteria", "Rose Periwinkle Plum" e "Xon", esta última flertando com o dub digital, confirmam. Mas são os timbres de electro, uma das primeiras ramificações do hip hop, gerado justamente na época em que o público punk e new wave começava a engrossar as platéias das discotecagens do mestre Afrika Bambaataa (segundo o próprio), que dominam esse "Tomorrow Right Now". Esse acento já vinha aparecendo em vários sons do seu antigo grupo - no álbum derradeiro, "Arrhythmia", está presente em "Ghostlawns" e explícito em "Bubblz", cujos arranjos, refrão e intro ("Contraption") apresentam claro paralelo com o clássico "The Haunted House of Rock" do Whodini .

Le Phreek, ces't Psychic
O primeiro "hit" óbvio do disco é "Phreek the Beet". Fluindo sossegadão sobre uma base mínima bem electro antigo (com direito a cowbell e vocal de mina), ele lança + ou - isso: "olá, olá, o B + o E + o A + N + o S... perca a esperança / não dá pra lidar com isso / melhor cortar os pulsos / contra o conformismo minha vida resiste... oh oh é o vândalo new wave/ entortando testículos até eles cantarem soprano". Em sua missão de estuprar o silêncio (faixa 4, "Raping Silence"), Beans arma seus contos com senso de humor afiado e imagens pesadas, que acompanham sua proposta de expansão sônica. Na introspectiva "Toast" um role de metrô de volta pra sua área serve como desculpa pra trazer seus pensamentos subterrâneos sobre sua função de mc pra luz. Mas é na a capella "Booga Sugar" que o auto-intitulado Mr. Ballbeans fica pelado, declamando sobre seus vícios de rimador e fumante ao mesmo tempo. Outra menção importante é "Crave", onde ele canta sobre uma cama de beatbox amador: "um senso mais profundo é o que os ouvintes curtem / porque tem muitos mc's e não há ouvintes suficientes". Mais recursos da velha escola, assim como o refrão "ready to rock / rock to the rhythm / rhythm rock / rock rhythm" de "Mutescreamer". O legal - pelo menos minha curtição da obra foi nessa direção - é que o uso dos elementos do passado nesse disco não aparecem como um recurso retrô, e menos ainda pra validar qualquer tipo de legitimidade old school - tipo eu sou milianos do rap - e sim pra fazer um som pra frente, provar que o rap ainda é uma arte e que amanhã é agora.

# André Maleronka também escreve no blog Trânsito e atualiza o flog de mesmo nome.

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Warp