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Sagacidade na hora dos samples

por Ramiro Zwestch

Os branquelas provaram não ser intrusos e mostraram que também sabiam (e sabem até hoje) fazer rap de primeiríssima qualidade. "Liscense To Ill" (1986) não inspirava tanto potencial assim. Tudo bem: era pura diversão - hip hop para tocar no rádio e fazer todo mundo pular no auge da festa com "Fight For Your Right (To Party)" ou "No Sleep Till Broklin". Mas poderia ser apenas mais um truque da indústria fonográfica sem vida longa ou nada mais que um bom trabalho de produtor - no caso, Rick Rubin, proprietário da lendária gravadora Def Jam.

Boutique Chique

Veio "Paul's Boutique" (1989) e os ouvintes mais atentos detectaram algo mais. Aquele trio de desbocados tinha, no mínimo, uma rima original e faro apurado para a escolha dos samples. Os três MCs firmaram parceria com a dupla de produtores Dust Brothers (John King e Mike Simpson) - que, até então, se contentava com eventuais discotecagens e gravações de mixtapes por distração. Eis que uma dessas fitas vai parar na mão dos Beastie Boys por intermédio de Matt Dike (que produzia Tone Loc). Formava-se a máfia responsável por "Paul's Boutique".

"Shake Your Rump" abre o disco e joga areia nos olhos de quem suspeitava da longevidade do grupo. A bateria recortada e remendada dita o ritmo com pulsação quebrada e faz chacoalhar só no instrumental. Entra o vocal e a casa cai. A letra reverencia os pioneiros do rap Funk 4 + 1 no clássico grito de "It's The Joint" e o confronto de três vozes dobra o som. Dali em diante, só boas surpresas: uma linha de baixo "roubada" (no bom sentido, tipo Robin Hood) de "Superfly" (Curtis Mayfield) em "Eggman", um vocal feminino extraído de "Loose Booty" (Sly And Family Stone) em "Shadrack" e todo o suingue de "Put On Train" (Gene Harris & The Three Sounds) em "What Comes Around". Bases garimpadas e bem lapidadas fazem o pano de fundo para o encaixe das rimas. Os Beastie Boys já deixavam claro que sua proposta não era só farra - era música refinada também.
Cheque o coco

Essa constatação tornou-se inevitável três anos depois. Em "Check Your Head", o terceiro álbum (que no Brasil foi lançado só em fita cassete, na época), a colisão de referências encontrou o ângulo perfeito para amplificar o impacto sonoro. Michael Diamond (vulgo Mike D), Adam Horovitz (também conhecido como Ad-Rock) e Adam Yauch (MCA) deram o salto definitivo.

Já reconhecidos como bons rimadores, aprenderam a se virar bem com instrumentos - o primeiro assumiu as baquetas, o segundo resolveu tocar guitarra e o último virou baixista. Com o reforço do criativo tecladista Money Mark, pegaram a manha de construir grooves instrumentais de fazer páreo às hipnóticas composições de Jimmy Smith ou Grant Green - sem, claro, a técnica dos heróis do jazz funk da gravadora Blue Note. "Namaste" e "Groove Holmes" fazem massagem no ouvido entre um rapão e outro. As fronteiras do hip hop se alargavam.

O álbum é o primeiro do grupo produzido pelo brasileiro Mário Caldato Jr. - engenheiro de som em "Paul's Boutique". A cuíca em "Lighen Up", portanto, não está ali por acaso. Com percussão latina e vocal minimalista, a faixa leva o ouvinte à letargia sem esquecer o suingue. Clima bem diferente, por exemplo, da faixa de abertura. "Jimmy James" apresenta "Check Your Head" com um convite ao pula-pula. A partir de uma linha de baixo sampleada de "Happy Birthday" (faixa obscura de Jimi Hendrix), Beastie Boys vociferam ao microfone e jogam cores na parede sonora cheia de ruídos - que mais tarde serviria de inspiração escancarada ao big beat de Chemical Brothers e genéricos. É mais ou menos esse o clima de "So What'cha Want". A diferença aqui está no refrão - que convida até quem nem entende uma palavra de inglês a cantar junto.

Sample é o que eu sei

No quesito "samples escolhidos a dedo", um retalho do vocal de "Under Me Sensi", na voz do jamaicano Barrinton Levy, se esconde por trás da sacolejante base de "Funky Boss".

Cabe ainda uma versão para "Time For Livin‚", do Sly And Family Stone. Com guitarras imundas e pé no acelerador, o grupo converte um soul balançado em punk rock sincero - em remissão aos primórdios do grupo, quando os futuros MCs se arriscavam no rock sujo de poucos acordes. Dessa fase, "Some Old Bullshit" (lançado em 1994) oferece um hardcore de garagem com atitude de sobra.

"Check Your Head" oferece ainda outras paisagens. "Something Got To Give" sobrepõe camadas sonoras, esbarra no dub e antecipa o clima do trip hop do Massive Atack. "Gratitude" apresenta um riff de guitarra grudento - meio funk, meio rock - e desafia a versatilidade dos MCs com uma base imprevisível para a rima.

Cheio de segundas e terceiras intenções, o spray que grafita o muro de "Check Your Head" não perde a personalidade em nenhuma das inúmeras variações de traço. O disco desencadeou uma trilogia finíssima com os álbuns seguintes: "Ill Comunication" (1994) e "Hello Nasty" (1998) - ambos com dosagens parecidas dos mesmos ingredientes encontrados na receita de 1992. Vai na fé porque não é todo dia que um disco de rap consegue dialogar com o dub, o punk, o funk, o jazz sem perda de identidade. O festejado álbum duplo do Outkast, "Speakerboxxx/ Love Below" (do ano passado), tem proposta e efeito parecidos. Coincidência ou não, "Check Your Head" foi lançado no mesmo ano da fundação do Outkast. Em 2004 completam-se seis anos de silêncio dos Beastie Boys. Cadê o disco novo, meu Deus?

# Ramiro Zwestch também escreve na radiola urbana (www.radiolaurbana.com.br)