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Instituto: produzindo e reinventando a música brasileira

Por Alex Antunes e Bárbara Lopes

Depois de uma apresentação memorável no Upload em dezembro, o Instituto voltou nos dias 7 e 8 de março ao Sesc Pompéia em São Paulo, para homenagear o rapper Sabotage, assassinado em janeiro. O Instituto é o coletivo e um selo de música independente, voltado para o hip hop e fusões da música brasileira com eletrônica.

No show-homenagem, se apresentaram Z'África Brasil com seu hip hop-reagge, mais o pessoal do Consequência e do RZO, e o rapper Celo X. Faz parte do Z'África o divertidíssimo Fernandinho Beatbox, que abre o show emulando com a boca instrumentos, scratches e gêneros eletrônicos, acompanhado por um celular. O grupo todo canta (e faz o público cantar) a animada "Sapo Na Banca".

O Consequência entra questionando o discurso habitual do rap. "Mas não me venha com discurso manjado / de quem fez curso de coitado, revoltado / cheio de problema / Diz que o culpado é o sistema / Então me explica / Quem é esse tal de sistema que não se identifica", diz a letra de "Numtointendendu". No meio do show, BNegão pega na guitarra e canta o "Funk Até O Caroço", surpreendendo como epígono de Tim Maia. Ao fim, se reúnem todos no palco para cantar duas músicas de Sabotage, "Rap É Compromisso" e "Um Bom Lugar".

No palco todo o tempo, a banda Instituto, formada por Daniel Ganja Man (piano fender rhodes, teclado e guitarra), Mauricio Takara, do Hurtmold (bateria), Rian, que toca com o Cidadão Instigado (baixo), Bocão e Beto, da Vai-Vai e membros da banda de samba-rock Clube do Balanço (percussão), Alexandre Basa (flauta, sax, guitarra e teclado) e Sapão (trumpete).

Os produtores e os canários
O núcleo básico do Instituto é o trio de produtores Rica Amabis, Tejo Damasceno e Daniel Ganja Man, mas sob suas asas estão reunidos mais de 15 grupos e artistas solo, como o pós-mangue beat de Otto, Nação Zumbi, Bonsucesso Samba Clube e Cidadão Instigado, e os rappers BNegão e Rappin' Hood. Uma estrutura moderna, adaptável e difícil de explicar (embora fácil de entender).

Dos três produtores, apenas um, Ganja Man, também é músico na concepção tradicional e se apresenta em palco; Rica e Tejo atuam no trabalho de estúdio; o resto da banda (baixo, bateria, percussão, sopros, teclados) é uma extensão flutuante desse núcleo. O trabalho do Instituto é dar casa, estúdio e produção para toda essa gente.

O curioso é que essa é uma atitude de trabalho que faz uma ponte entre práticas musicais do passado e do futuro. Do passado, porque antigamente era grande a quantidade de arranjadores, diretores musicais e bons instrumentistas atuantes em shows e gravações. Qualquer álbum de orçamento médio até a década de setenta podia contar com bons arranjadores, orquestra, músicos solistas etc.

Isso foi substituído na indústria musical primeiro pela lógica de banda - formação pequena e fixa -, e finalmente lógica de banda ruim, no punk - formação pequena, fixa e completamente amadora. O do it yourself nivelou por baixo a cultura musical, e barateou mais ainda os custos de produção.

Mas, ainda no passado, apesar do esmero dos músicos e arranjadores, a ênfase pública era sempre nos cantores. Exemplo disso é que discos da década de 60, maravilhosamente arranjado e executados, freqüentemente sequer tinham uma ficha técnica. Era a época dos "canários", gíria antiga para os cantores, o foco artístico das produções.

Depois do rock e do punk, já na era eletrônica, as formações básicas se reduziram para um - o artista que trabalha sozinho, ou o produtor enquanto artista, que teve o seu primeiro ápice no início da house, já no final dos anos 80; é o do it yourself levado às últimas conseqüências.

Mas, de tempos para cá, os produtores-artistas têm usado a sua autonomia artística para recrutar músicos e cantores. É o caso de núcleos de produção como o Massive Attack (que lança mão de cantores convidados, alguns notáveis), ou o Groove Armada, que aos poucos converte seus álbuns e shows num enorme coletivo de músicos e cantores convidados.

Pois o Instituto dá um passo além, sendo ao mesmo tempo um núcleo de produção à antiga (que trabalha para outros "canários", ou bandas, assinando apenas a produção) e à moda moderna, tomando a iniciativa artística e moldando o trabalho alheio segundo seus próprios critérios.

Fusões e flutuações
Esse foi o caso de Sabotage, levado pelo Instituto a cantar um híbrido fascinante de samba e rap, primeiro timidamente, e depois com crescente desenvoltura. Essas experiências aparecem na trilha do filme O Invasor e na primeira coletânea do selo, a Coleção Nacional. Agora o selo se prepara para lançar o novo álbum de Flu, ex-baixista do De Falla.

A música que resulta dessas formações flutuantes vai do rap, passa pelo reagge, pelo dub e pelo funk, flerta com a eletrônica e chega ao jazz. E, claro, muito samba. Uma mistura alegre e festiva, e muito sofisticada.

No show, os rappers, além do acompanhamento instrumental, ganham ao se desvencilharem do discurso já viciado do hip hop estabelecido, fugindo tanto da "canalhice" e violência, de um lado, quanto da pregação arrependida, por outro. A politização do discurso fica mais inteligente. É um caminho, uma saída para o gênero, e talvez por isso seja possível ver na platéia de seus shows jovens de classe média dançando ao lado com a rapaziada da periferia.

Sabotage era exatamente o ícone desse "novo rap" do bem. Agora, morto, assume o papel de cordeiro, de bode expiatório, fazendo mais e mais gente enxergar a revolução feita pelo coletivo. A homenagem deixou clara que a proposta do Instituto perdeu a sua principal face, mas o caminho já está aberto.