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Isto não é US3

"Antipop Consortium vs Matthew Shipp" (Thirsty Ear, 2003)

Se você está acostumado com aquela coisa pop grudenta, muito frequente ultimamente nos encontros do jazz com o hip hop, prepare-se para este disco: "Antipop Consortium vs Matthew Shipp" é praticamente um encontro de desajustados.

Desajustados no sentido de não seguir nenhum padrão tradicional dos gêneros em que estes artistas são encontrados nas prateleiras das lojas. O álbum, lançado pela gravadora Thirsy Ear (http://www.thirstyear.com) reúne o hip hop mais que experimental do Antipop Consortium com o total avant-garde jazz do pianista Matthew Shipp.

A parceria deste álbum é praticamente perfeita: aquela sensação de estranhamento e surpresa dos álbuns anteriores do Antipop é levada a patamares bem mais elaborados com a fina colaboração do jazz de vanguarda de Shipp.

O estilo deste músico de 43 anos, nascido em Wilmington, EUA, pode ser checado na insana "Free Hop", última faixa do álbum, assim como sua versatilidade na suave "Stream Light". Nestas duas faixas, o caráter jazz é totalmente preservado, mesmo com uns scratchs aqui e ali. Já o estilo Antipop Consortium puro aparece na faixa "Coda", apesar do baixo acústico - referência clássica do jazz -, que é amplamente utilizado neste disco. Nestas faixas os artistas apresentam suas credenciais próprias. O sentido da palavra "Vs" do álbum aparece claramente nas outras faixas do álbum.

O refinamento do pianista parece ter contagiado o Antipop, que esmerou a produção do disco, comparando com os seus registros anteriores. O encontro de vanguarda produziu um álbum diferente e novo em todos os sentidos, preservando as características de cada trabalho. A fusão de gêneros passa a anos-luz do convencional. O conceito aqui é outro.

A parceria com Shipp é praticamente o sonho dos produtores do grupo, que não poderiam deixar de abrir mão, é claro (e para o delírio geral do ouvinte), das esquizofrênicas edições de samples e beats, marca registrada do Antipop Consortium. Pois ele consegue encaixar seu piano nelas com maestria, e ainda coloca suas notas nas mais diversas formatações de produção.

Em "Real is Surreal" e "Slow Horn", por exemplo, Matthew Shipp tem seu piano praticamente retalhado em micro samples e pequenas intervenções que dão um toque minimal às canções estilo Antipop. Já em "Staph", uma das melhores do álbum, Shipp dá aquele toque humano à base do Consórcio com improvisações e solos de seu piano, sempre bem colocados. O mesmo esquema é utilizado nas canções "A Knot in your Bop" e na ótima e pesada atmosfera de "Monstro City". Editado, resampleado, solando ou tocando o jazz pelo que é conhecido, o homem é uma fera. Madlib faria 49 discos com um punhado de registros de um parceiro deste naipe.

O experimentalismo do álbum acaba produzindo algumas coisas curiosas, como a faixa "SVP", por exemplo. Tão diferente que chega a lembrar algumas músicas do ambient eletrônico de Boards Of Canada. Algo impensável em um disco da prateleira do hip hop. E também das prateleiras do jazz instrumental tradicional.

E como vida de louco nunca é fácil, Shipp teve também que arcar com seu "lado antipop": "Me mudei para New York em uma época bem bizarra", diz Shipp sobre sua mudança para a cidade em 1984, em entrevista publicada em seu site oficial (http://www.matthewshipp.com). "Foi difícil pra mim conseguir notoriedade ou reconhecimento de qualquer espécie, pois a onda neo-conservadora do jazz estava bombando naquele tempo; tudo era Wynton Marsalis e seu pessoal. Foi um tempo difícil para um músico jovem, negro e fora do mainstream conseguir reconhecimento", revela. Mesmo assim, lançou cerca de duas dezenas de discos em 13 anos, fiel ao seu estilo. Hoje em dia, é capa da "Wire".

"O que acho interessante é que a música americana deveria ser uma mistura. O 'jazz purista' vai totalmente contra isso. É realmente estranho que a indústria tenha criado certos tipos de pessoas, que assumem certas atitudes, andam de certas maneiras, se vestem com determinadas roupas, falam de certo modo. Todos eles concordam que Coltrane foi o maior, mas são a perfeita antítese de tudo que Coltrane nos deixou de legado", diz Shipp.

Com certeza, por ter essa mentalidade, Shipp se deu tão bem com o Antipop Consortium neste disco. Assim como Matthew penou pelo reconhecimento dentro de uma cena já estabelecida, o Antipop Consortium, que divulgou sua versão de hip hop através de tapes, flyers, e acabou por ter maior visibilidade dentro de um território estranho para o gênero como a Warp Records. Neste caso, foi a diferença que acabou sendo levada em conta, justamente no fato de High Priest continuar fiel ao objetivo de sua música: provocar o distúrbio do equilíbrio, tirando o hip hop do lugar comum.

# fipoxxx é jornalista, produtor musical e
ensandecido usuário de P2P


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