Com as roupas e as armas de Jorge
Por Ramiro Zwetsch
Quatro agentes da Nação Zumbi se infiltraram sorrateiramente no mais equipado QG do groove brasileiro e arrombaram o cofre. Vestidos com as roupas e armas de Jorge Ben, se disfarçaram de Los Sebozos Postizos e investigaram a obra do sujeito desde “Samba Esquema Novo” até “África Brasil”. Um dossiê foi levantado e será apresentado para contemplação do júri popular em duas sessões nas noites de sexta e sábado (30 e 31 de julho) na chopperia do Sesc Pompéia.
É a Noite do Ben – balada ainda inédita em Sampa. Recife, Curitiba e Rio já registraram a ocorrência. Jorge Du Peixe, Lúcio Maia, Pupilo, Dengue – vocal, guitarra, bateria e baixo da NZ –, em ação conjunta com Bactéria (tecladista do Mundo Livre S/A) e o percussionista Da Lua tocam cerca de 20 músicas do Ben e mais algumas surpresinhas. Os jamaicanos Augustus Pablo e Horace Andy, os Beatles e o francês Serge Gainsbourg são prováveis alvos da conspiração.
Quem acompanha os shows da NZ, sabe que “Umbabaraúma, o Ponta de Lança Africano” já entrou no repertório de shows recentes da banda – assim como “Purple Haze”, do Jimi Hendrix. Testemunhas afirmam que o estrago sempre é grande nesses dois números. A Radiola Urbana acionou sua rede de espionagem e encontrou algumas pistas de como será a emboscada. Os sites “Recife Rock” e do selo Instituto oferecem algumas provas do crime. Para acessar os arquivos confidenciais é só clicar aqui e aqui.
Também grampeamos uma ligação telefônica em que Jorge Du Peixe dá declarações esclarecedoras a respeito das intenções dele e de seus comparsas. Além de invadir o repertório alheio, Los Sebozos Postizos não descartam ações futuras mais ousadas – como, por exemplo, a gravação de um disco só com músicas autorais. A íntegra do telefonema grampeado segue transcrita abaixo. Mais informações sobre a Noite do Ben aqui.
Qual a sua expectativa para as primeiras edições da Noite do Ben em São Paulo?
A melhor possível, até porque já estava rolando uma procura. Cogitou-se, inclusive, fazer no litoral mas não rolou por causa da agenda da Nação Zumbi – que é nossa prioridade. Mas tocar na chopperia sempre é bom: o palco é baixinho, a gente fica perto da galera...
Por quê Jorge Ben?
Quando começamos nem era só Jorge Ben, rolava mais uns jamaicans soul. O projeto apareceu da vontade de tocar som bom, som que a gente gosta de ouvir. Gravamos com o nome de Los Sebozos Postizos, pela primeira vez, no disco de estréia do Mamelo Sound System. Depois, participamos também do disco do Instituto. Como a gente sempre gostou de ouvir as coisas antigas do Jorge Ben, foi uma escolha natural. A gente toca as músicas naqueles moldes originais, não existe intenção de alterar os arranjos, a gente toca do mesmo jeito que a gente gosta de ouvir. Não tem no Brasil alguém que tenha sido mais atemporal do que Jorge Ben. Daqui a 20 anos, aqueles discos continuarão atuais. Aquele formato continua muito atual.
Ele já participou de uma gravação da NZ, em “Malungo”...
A gente já tinha gravado “Charles Jr.” para um disco meio tributo para ele. Depois do falecimento do Chico (Science), convidamos ele para cantar em "Malungo" e ele fez uma interpretação única... Ele foi ao estúdio e eu tinha que pegar um avião para gravar uma participação no disco do Soulfly, então o contato foi muito rápido.
O falsete dele naquela gravação até lembra a fase só Ben. Ele foi orientado nesse sentido ou foi um improviso natural?
Foi natural. Ficou legal, todo mundo sabe que ele tira música até da lista telefônica.
Vocês voltaram a se encontrar?
A gente até tinha cogitado uma participação dele no último disco da Nação. Até dei uma cutucada nele, sugeri para ele de juntar o violão dele com os tambores da Nação, mas ele balançou a cabeça. Acho que ele não gosta mais de tocar violão.
Ele já foi à Noite do Ben?
A MTV tentou levar ele quando rolou no Rio, mas ele estava na Europa.
E o que mais rola na Noite do Ben?
Rolam os clássicos dele dos anos 60 e 70, do “Samba Esquema Novo” até “África Brasil”. E rola também Horace Andy, Augustus Pablo e outras coisas que eu não vou falar para não estragar a surpresa.
Você falou que não interferem muito nos arranjos...
A espinha dorsal a gente mantém, que é mais a maneira de cantar dele que é muito particular. Mas os arranjos são mais na nossa perspectiva.
Mas o Lúcio toca violão ou guitarra?
Guitarra. Somos elétricos.
E como é essa história de misturar Jorge Ben com música jamaicana no repertório?
Tudo tem o soul enraizado. Esse negócio de rotular música é uma parada inexistente. A música negra sempre foi híbrida, Jamaica e Jorge Ben tem tudo a ver.
Os Sebozos pensam em gravar um disco?
A gente já cogitou, mas com músicas nossas, autorais. Talvez uma ou outra do Jorge Ben.
O dub é uma referência forte tanto para a NZ como para os Sebozos...
Sempre foi, desde de “Da Lama Ao Caos”. É sempre um refúgio.
Qual é a maior contribuição do dub para a música contemporânea?
O dub é responsável por tudo que rola na música eletrônica. Os caras operavam em mesas de quatro canais e eram grandes mestres da música no lance das texturas. Os caras sabiam fazer. E não é só colocar um eco na música para dizer que está fazendo dub.
Você conhece o projeto Dubversão?
Até fiz o cartaz deles, participo indiretamente do projeto. Eles fazem a real, estão levando o som para a rua. Isso é necessário e poderia partir da iniciativa privada.
E a NZ já pensa em gravar um disco novo?
No ano que vem, por causa do DVD que está para sair provavelmente em setembro. Mas estamos na ansiedade, a gente já pensa no próximo disco. O estúdio é nosso parque de diversão maior. Já está todo mundo no gás para gravar.
E o próximo show em São Paulo?
Será 3 de setembro, no Directv, para lançar o DVD.
# Ramiro Zwestch também escreve na radiola urbana
Esta matéria foi publicada originalmente no site Radiola Urbana.