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Urbália (veja site especial)
Quando do lançamento de Mamelo Sound System (ybrazilmusic, 2000) eu escrevi em página de jornal paulistano que o futuro começava ali e era intrigante. Como ensina a sabedoria popular, o suntuoso caderno cultural no dia seguinte embrulhava peixes na feira, porém, o futuro teve início e seguiu de forma realmente intrigante. Falo de um disco anterior - o primeiro no Brasil a trazer conceitos de núcleo de produção/ não banda, subversões deliberadas de estúdio e convidados/ colaboradores - no release do segundo álbum, pois agora, com este "Urbália" (Selo Instituto/ ybrazilmusic) nas ruas, o trio Rodrigo Brandão (voz), Lurdez da Luz (voz) e Alexandre Basa (instrumentos e programações) leva o ouvinte a um diálogo com o primeiro trabalho. Um diálogo coerente e intenso, como aqueles que as pessoas não têm no trânsito, no cafezinho ou nas filas de banco. Se de início havia a faixa síntese "São Paulo S/A", em referência ao clássico cinematográfico de Luiz Sérgio Person, há agora um retrato ampliado da concretude universal - a cidade ácida Urbália.
OK, o álbum foi feito na antiga terra da garoa (mais precisamente entre os bairros da Pompéia, da Vila Mariana e do Glicério), mas é da urbanidade globalizada (nenhum eco de neo-liberalismo, que fique isso bem claro), da vida algo caótica dos grandes centros, da manutenção da sanidade e do sorriso (não ficcional) no rosto que se fala nas letras personalíssimas. A sugestão aqui é a de uma São Paulo alegórica lida para o mundo e o mundo alegórico lido para São Paulo. "Ganhar a lança da city por cima alucina, faz brilhar o olhar do mais velho ou da menina. É como um mar de luz que parece não ter fim… zona Leste, Norte e Sul - daqui é tudo igual pra mim. Chapei no visual, tipo cena dum gibi do Surfista Prateado que há miliano eu li. De lá pra cá, o mundo mudou com a rapidez do raciocínio de um bom jogador de xadrez - e acontece a mesma coisa com pessoas e locais: o que se via ontem, agora não é mais", dizem eles em Isso Aqui Não É 1 Teste!.
"Urbália" é um disco de hip-hop que oscila entre o dub, o funk, o jazz e a sonoridade espacial. Pois é, sonoridade espacial. Produzido inteiramente por Alexandre Basa (responsável pelos beats e efeitos ao vivo) , o álbum traz intervenções de Afrika Bambaataa (presente também lá no primeiro disco), anunciando com sotaque new yorker do South Bronx o grupo na introdução; do beat box de Rahzel, o Godfather of Noyze, do crew do grupo da Filadélfia The Roots em Isso Aqui Não É 1 Teste!; do guitarrista Marinho Ferrari nas faixas Isso Aqui…, Falsidade e Amor em Tempos de Guerra; do DJ Primo, nos toca-discos das faixas Falsidade, Clandestino Secreto e Silenzio; esta última também com a bela voz de Geanine Marques. Em Cidade Ácida um certo Dr. Kelóide solta a voz no coro. Dr. Kelóide? Eis um mistério urbano.
No mais, há as letras e a interpretação dos mamelucos rimadores Rodrigo Brandão e Lurdez da Luz. A confluência dos interesses de um estudioso apaixonado pela música da diáspora africana e de uma vocalista involuntariamente sexy que passa ao largo de chichês feministas no relato de seu cotidiano na metropóle resulta num discurso pródigo em informação e intenções. Entre uma frase e outra, pode-se encontrar personagens díspares como Bob Marley, Jim Jarmuch, Outkast, Mutantes, Miles Davis, reflexões acerca da desigualdade social e uma peculiar elegia à personalidade artística - a faixa derradeira E La Nave Va. Tudo isso de modo extremanente coloquial e há anos luz de qualquer caráter doutrinador apocalíptico. É como dizem em Silenzio: "Uma pá de gente pode perguntar porquê que a gente lança essa real, se na real curte um auê. Podicrê, nossa fé é no funk, mas pense o que seria do som se não fosse o silêncio…". Ou no refrão de Clandestino Secreto: "Entre overdubs e overdoses, nossas vozes carregam 1 verdade casca-grossa como nozes, mas que voa leve e alto como um par de albatrozes". Toadas intrigantes de um futuro em pleno curso.
Rodrigo Carneiro
jornalista e músico
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©2003
YBINST CD006
:: Produzido por Alexandre Basa
:: Arte por Ricardo Fernandes
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