Na mesma hora em que vi a notícia, lembrei as dezenas de spams que recebo todos os dias na minha caixa postal – a maioria com erros grotescos de grafia, acentuação, entre outros, oferecendo a Lua por uma bagatela. É que a polícia apreendeu, na semana passada, um Toyota Corolla com placas de “Frorianópolis”, erro de grafia que estava inclusive reproduzido no documento do veículo. Não quero aqui fazer apologia a esse ou aquele tipo de crime (afinal ladrão é ladrão), mas na hora me lembrei ainda de Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador inglês, que após o crime veio se refugiar no Brasil.
Tenho a impressão de que o crime até meados do século passado era mais, por assim dizer, romântico. Meu pai teve alguns carros furtados. Era voltar ao local de estacionamento e dar pela falta do veículo. É uma sensação horrível. Mas nem se compara ao trauma de um seqüestro relâmpago, a ficar horas na mira de uma arma de fogo. A prática do crime ficou mais tosca. O furto espertalhão foi substituído pela violência. Meu avô tinha em seus carros uma “trava de gasolina”, que consistia em pisar num botão que ficava no pé do motorista e o carro parava em uns três quilômetros. O ladrão acharia que o automóvel havia quebrado e iria embora. Imagina esse dispositivo hoje!

O estelionato ganhou um sofisticado verniz técnico – somos roubados por vírus que invadem nossos micros e esvaziam nossas contas bancárias –, mas, se repararmos bem, por programas de computador que vêm acompanhados de mensagens absolutamente toscas. Mas o que esperar de um país em que o presidente da República se vangloria por não ter estudado? Ou que compara o prazer que a leitura pode proporcionar ao hábito de andar sobre uma esteira de ginástica? Hoje o que impera é “subir na vida” a qualquer preço, nem que para isso destruam-se pessoas ou famílias. Eis outra característica que se nota bem na atitude de certos motoristas. Outro dia quase fui atropelado por um desses, que avançou o sinal vermelho pelo simples fato de ele estar de carro – e eu a pé.
Nos anos 50 e 60, diploma de curso superior não era garantia de emprego e vida próspera e estável? Entre o fim dos anos 80 e os anos 90, houve uma multiplicação de “faculdades” (que alguns insistem em chamar de “facu”, mostrando bem como tudo isso foi banalizado). “Não é de diploma que você precisa?”, parecem ter perguntado à sociedade alguns empresários com senso de oportunidade. Vejo médicos, advogados e engenheiros (para citar as três profissões mais glamourizadas há 20 anos) escrevendo mal e porcamente. Pelo simples fato de terem optado pela profissão que mais “daria grana”, alguns estão certamente fazendo outras coisas da vida. Outros vivem de dar golpes. Seja oferecendo um carro zero-quilômetro para quem digitar conta e senha em um endereço fornecido por um e-mail duvidoso, seja clonando carros roubados – e instalando neles placas de “Frorianópolis”.
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