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ARTIGO
AUTOGIRO
Teoria da conspiração
O trânsito de Brasília, que lembra Las Vegas, e os motoristas de táxi que tudo sabem
por LUÍS PEREZ, de Brasília

DivulgaçãoHoje escrevo de Brasília, capital do país, que me lembra Las Vegas (EUA). Antes que o leitor pense que vou falar sobre corrupção ou jogatina, já adianto: Brasília, como Las Vegas, parece do alto uma cidade de papel edificada no meio de um deserto – lá o de Nevada; aqui o Cerrado. Entre as duas, há a coincidência de nenhuma ter sido pensada para quem não tem automóvel. Os próprios brasilienses admitem que aqui não existem esquinas.

Mas o trânsito continua ótimo (já estou me preparando para receber cartas indignadas de moradores de Brasília, contestando o que estou escrevendo; mas lembre que meu parâmetro é a caótica São Paulo). Há quase dez anos, passei uma temporada trabalhando aqui. Na ocasião peguei um táxi, que parou em um semáforo. Era o quinto da fila de carros. “O trânsito daqui está um horror!”, exclamou. Retruco: “Puxa, vocês precisam passar uma temporada em São Paulo para aprender o que é horror no trânsito”.

Por falar em táxi, quero tocar em outro assunto antes que o tema Copa do Mundo esfrie de vez. O “Casseta e Planeta” tem um quadro em que os agentes secretos, quando tudo parece obscuro, resolvem fazer o que chamam de “recorrer aos taxistas”. Sim, porque taxistas sempre sabem de tudo. Outro dia peguei um que presta serviços em uma publicação para a qual colaboro. Ele se lembrou de mim de outras saídas. Seguimos o caminho falando sobre carros, futebol e... conspirações!

Para ele, o Brasil foi comprado pela França na Copa de 1998 (ainda não havia acontecido o jogo entre as duas seleções nesta). Zagallo e Ronaldo teriam sido na época parte de um grande esquema capitaneado pela Nike. Citou ainda meia dúzia de conspirações em curso por aí até se lembrar de que, certa vez, saímos juntos para fazer uma reportagem que consistia em apontar qualidades e defeitos de um mesmo produto de diferentes marcas – e ao final eleger a melhor.

Foi quando o motorista sabe-tudo soltou mais uma de suas frases como quem desvenda um grande segredo: “Quanto será que aquela empresa pagou para ficar em primeiro lugar? Vai saber!” Não cheguei a ficar ofendido, mas bateu uma certa indignação. Afinal eu havia trabalhado duro naquela reportagem, e os resultados do teste eram produto de uma minuciosa (e criteriosa) análise. Disse a ele: “Olha, o responsável por aquele resultado sou eu e, pelo que saiba, não recebi um tostão a não ser a remuneração da publicação pelo serviço”.

Ele ficou meio sem graça, mas não perdeu aquele ar de “te peguei, como sou esperto”. Não é a primeira pessoa que vejo com teorias mirabolantes para fatos que se recusam a acreditar que sejam verdade. No mundo todo a corrupção tomou proporções tamanhas (claro que no Brasil esse dado é ainda mais acentuado pelos exemplos do dia-a-dia e, aqui em Brasília, existe mesmo um clima de jogo de poder) que muita gente já não consegue diferenciar fantasia de realidade. E costuma achar que algo tido como “impossível” (uma derrota da seleção brasileira para a da França dentro das quatro linhas) só pode ser armação, como se todos os jogadores fossem atores dignos de levar o Oscar. Faríamos então todos parte de um imenso “Truman Show”. Será que é o caso?

Publicado em 13/07/2006

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