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ARTIGO
AUTOGIRO
Você é o que você dirige?
Até que ponto o carro é símbolo de status? Velhinho pode ser uma questão de estilo
por LUÍS PEREZ

DivulgaçãoEis que as autoridades competentes do prédio onde moro vez ou outra vêm falar comigo sobre um assunto comum a quase todos os condomínios: problemas com as vagas na garagem. Designadas por sorteio, e até é justo que o sejam, não é raro encontrar um Ford Ka (que mede 3,62 metros de comprimento) em uma vaga de seus 5 metros e um modelo como o Chevrolet Vectra (4,62 metros) em uma vaga de 4,5 metros – isso mesmo, sobrando um teco do automóvel pra fora.

De uns tempos pra cá, em razão do lançamento de Interpress Motor, voltei a testar diferentes modelos de automóvel. Hoje o zelador me abordou: “Luís, você vai deixar aquele carro enorme naquela vaguinha? Tem morador reclamando que atrapalha”. Tentei argumentar: “Sim, enquanto o dono do Uno Mille da vaga que eu ocupava antes, que era bem maior, não resolver trocar comigo”. Pelo estatuto do condomínio, as vagas não podem mudar antes de dois anos.

Já tentei falar com a síndica. Paciente, ela me disse que não adianta argumentar para entrar em acordo com outro morador. Acrescentou ainda que alguns chegam a se ofender com a proposta. “Donos de carros pequenos se irritam, perguntam se a gente não acredita que eles terão capacidade de progredir na vida e comprar um carro maior”, disse ela. Ponderei: “Puxa, eu acredito nas pessoas. Torço até para que meu vizinho ganhe na loteria e compre um carrão. Mas, enquanto isso não acontece, será que ele não pode trocar de vaga comigo?” Não. As regras do condomínio são mesmo rígidas.

Lembrei-me inclusive de algumas histórias que aconteceram em empresas. Numa delas o gerente comprou um carro maior e mais bem equipado que o de seu diretor – e acabou demitido por causa disso. Automóveis caros de fato impressionam, despertam curiosidade. Não poderia ser diferente, até porque tem a ver com o fato de ser mais ou menos bem-sucedido etc. No entanto, a diferença gritante de tratamento de acordo com o automóvel já não é a mesma de 15 anos atrás, quando os importados começaram a desembarcar por aqui.

Folgo informar que, nos lugares mais bem freqüentados, isso não acontece mais. Se você chega a um restaurante chique com um velho Fusquinha anos 70, não é maltratado – a não ser que o bólido esteja enferrujado, fumando e caindo aos pedaços. Com um carro velho, mas bem conservado, você no mínimo é visto como alguém excêntrico, que tem estilo próprio.

Não me importa o modelo ou o ano do automóvel que eu dirijo. Ele serve para me transportar e, se puder me dar prazer ao conduzi-lo, tanto melhor. Não poluindo ou causando acidentes a pedestres ou outros motoristas, enfim, não prejudicando ninguém, isso é problema exclusivamente meu.

Será que a gente é o que dirige?

è Você é mulher e tem um 4x4? Participe de uma reportagem clicando aqui.

Publicado em 18/07/2006

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