Nas escolas em que estudei, havia dois tipos bem definidos de professor: o que sabia muito e fazia do aprendizado de determinada matéria puro deleite, pois mostrava como era fascinante aplicar aqueles ensinamentos no dia-a-dia; e o que não sabia quase nada e procurava mostrar que todas aquelas fórmulas complicadas e absolutamente teóricas estavam muito acima do que a capacidade de compreensão que nós, pobres alunos, um dia poderia sonhar atingir. Este último professor se vangloriava por “dominar” um assunto incompreendido por quase todos os outros. Devia se sentir muito, muito poderoso.
No mundo do automóvel, a democratização do acesso às informações aconteceu na velocidade da internet. Na hora de comprar um carro, o consumidor pode entrar nos sites dos fabricantes, realizar simulações, comparar equipamentos, versões, preços, entre outros dados, sem precisar se submeter à “caixa preta” que era a famigerada listinha que o vendedor da concessionária sacava da gaveta ou, mais recentemente, consultava em uma sombria tela escura com letras verdes, de DOS, em um terminal.
Se o veículo tem algum problema, existem sites especializados que trazem competente conteúdo técnico – e ajudam a diagnosticar o defeito sem ter de se submeter ao discurso cifrado do mecânico que tempos atrás cobrava o que bem entendia para fazer um reparo extremamente simples. Ainda na internet, grupos de discussão ajudam os consumidores a trocar opiniões sobre as características de cada veículo e, sem dúvida, já motivaram até recalls de montadoras. Não é à toa que, de uns tempos para cá, os fabricantes designam profissionais para monitorar sites de discussão e relacionamento.
Por fim (mas nem por isso menos importante), alguns consumidores descobriram que, apesar de toda a burocracia, é possível até importar peças ou veículos inteiros orientando-se pela rede mundial. O que se fazia por escritórios especializados ou despachantes agora é resolvido rapidamente pelo computador. Lembro que pouco tempo atrás adquiri um carro novo e resolvi providenciar pessoalmente toda a documentação. Senti-me um verdadeiro idiota quando, ao final de uma hora de fila, o funcionário de um guichê do Detran (Departamento Estadual de Trânsito) de São Paulo gerou um boleto de pagamento pela internet – o que eu poderia ter feito tranqüilamente de casa – e me mandou para outra fila, a do banco (será que ele já ouviu falar em “internet banking”?).
Sabe por que todas essas facilidades são possíveis? Primeiro, porque não é possível frear a demanda por informações. Mas também em grande parte porque um sujeito chamado Bill Gates, que na época da faculdade projetou com o amigo Paul Allen um equipamento de monitoramento inteligente de tráfego, resolveu tornar o computador mais familiar às pessoas “normais”. De complicado equipamento de empresas, o micro virou eletrodoméstico. Desceu do pedestal. O tal trabalho de escola se tornou o embrião de uma empresa, a Microsoft, e Gates é hoje o homem mais rico do planeta. Se existe um paralelo com o mundo do automóvel? Sim, alguns. O mais célebre exemplo é o de Henry Ford, que implantou com o modelo T o conceito de linha de montagem e automóvel “popular”.
Alguma coisa me diz que o poder que aquele segundo professor guardou para si não serviu para nada.
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