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ARTIGO
AUTOGIRO
O que há por trás da questão do engate
Regulamentação do equipamento pelo Contran foi influenciada por razões políticas
por LUÍS PEREZ

DivulgaçãoNão que a história se repita. Mas conhecê-la ajuda a entender o presente e a analisar determinadas situações. A euforia que veio após a Primeira Guerra Mundial desembocou no “crack” da Bolsa de Nova York, em 1929. Professores de história, para simplificar o New Deal do então presidente norte-americano, Franklin Roosevelt, brincam que ele pagava funcionários para espalhar tampas de garrafa à noite para que outros – igualmente remunerados pelo Estado – as recolhessem no dia seguinte pela manhã. Claro que a política econômica dos EUA entre 1933 e 1935 (que teve continuidade pelo menos até o final dos anos 30) foi muito mais do que isso. Transpondo aquela realidade para o Brasil de hoje, o único ponto de contato talvez seja mesmo a precariedade do trabalho.

Dados do Ministério do Trabalho indicam que brasileiros com escolaridade mais alta vêm sendo demitidos em velocidade superior à de contratação de profissionais do mesmo nível. O inverso ocorre entre analfabetos e os que têm no máximo a quarta série do ensino fundamental. O que isso tudo tem a ver com automóveis? Simples: o que está por trás da recém-publicada resolução 197, que regulamentou o uso do engate automotivo, está diretamente relacionada à política e à exploração de profissionais com baixa especialização. Sob o pretexto de defender o emprego fixo com carteira assinada, o país forma bandos de apertadores de parafusos sem a mínima preocupação com sua formação. É um New Deal, só que (detalhe...) sem planos para o futuro próximo.

Logo nas primeiras reuniões das câmaras temáticas que resultaram na determinação do Contran (Conselho Nacional de Trânsito) de manter o engate cheio de normas (leia aqui), sindicatos e fabricantes de engate evocaram sua responsabilidade social (termo que hoje está na moda) e afirmaram que, caso o equipamento fosse proibido, 120 mil pessoas perderiam o emprego. Na época, há cerca de três anos, todas as empresas que integram a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) empregavam pouco mais de 90 mil pessoas. Haja fábrica de engate! Foi por isso que o diretor do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), Alfredo Peres da Silva, afirmou dias atrás a este colunista que a lei a que se chegou foi “a arte do possível” (leia aqui).

A queda-de-braço envolveu gente graúda. Decidiu-se por fim que o engate deve ser mantido. Afinal até existe gente que o usa para rebocar barco, jet ski ou qualquer outra coisa – e mesmo esses serão atingidos, no mau sentido, pela nova lei, que adotou a seguinte filosofia: vamos dificultar as coisas para, quem sabe assim, os que usam engate para dar um “chega pra lá” nos outros se toque e trate de retirá-lo do veículo. Sinto dizer, mas não é assim que funciona. Conheço pessoas que estudaram bem mais do que os apertadores de parafuso e que pensam ser legítimo usar engate para “impor respeito”. Essa tal gente graúda trocou e-mails nada amistosos. Um dos interlocutores ironicamente sugeriu que se estimulasse a violência no trânsito para evitar o desemprego na “indústria funerária”. Claro que melhor seria adotar apenas o engate móvel. Mas, puxa vida, ele é bem mais caro que o fixo, e as vendas cairiam.

Fato é que um país de motoristas deseducados em que as leis são feitas a reboque (com o perdão do trocadilho) de um lobby que não está nem um pouco preocupado com a vida humana ou o patrimônio alheio, mas com seu próprio bolso, de certa forma merece a falência do Estado, a falta de mobilização da sociedade civil, o permanente assédio de golpistas, a corrupção desenfreada estimulada pela burocracia e a burocracia desenfreada provocada por esses mesmos (e também por outros) golpistas. O cidadão de bem já reparou a quantidade de documentos é preciso assinar para fechar qualquer negócio que seja? Pois temos seis meses pela frente para que Inmetro e consumidores se preparem para lidar com a tal questão do engate. Posso apostar que essa história ainda vai longe.


è Leia também: "Inmetro nega inspeção do engate para daqui a seis meses"

Publicado em 17/08/2006

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