Gosto de dizer que publicitários são jornalistas com dinheiro. Tola simplificação. As diferenças vão muito além da verba. São semelhanças curiosas. Os dois trabalhos são muito glamourizados, mas dependem mais da capacidade de carregar pedras e suar a camisa do que de arroubos de inspiração. Claro que às vezes acontece – e os textos em que a gente (a gente jornalista) menos põe fé são os que em geral estouram, suscitam comentários, criam vida própria e circulam internet afora.
Publicitários têm um órgão chamado Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária), cujo objetivo é “impedir que a publicidade enganosa ou abusiva cause constrangimento ao consumidor ou a empresas”. Três anos atrás a Fiat exibiu um filme, chamado “Presidiário”, que depois teve de ser retirado do ar. Nele há todo um ritual de alguém que passou anos de sua vida atrás das grades. Recolhe roupas, pente, espelho, diz adeus aos companheiros do cárcere. Sai às ruas, vê um Palio e não resiste (a cena seguinte não é mostrada, apenas sugerida: ao fundo, se ouve um vidro espatifado e o disparo de um alarme). Aí o locutor entra, em “off”, e profere o slogan: “Novo Palio. Impossível ficar indiferente”.
Isso mesmo. Após anos atrás das grades, o ex-presidiário se esquece de tudo o que passou na prisão e resolve furtar aquele carro “irresistível”. Mesmo exibido anos antes da onda de ataques em São Paulo, o comercial foi visto como incentivador do crime, incitador da violência etc. etc. etc. Fora do ar, a agência Leo Burnett, idealizadora do comercial, levou o Leão de bronze no festival de Cannes. Particularmente adorei o filme. Não veria nenhum problema em deixá-lo no ar. Talvez esse fosse um dos casos em que a propaganda, que adora exemplos de perfeição (aliás, já reparou que o que não faltam são slogans com a palavra “perfeito”?), se aproxima da realidade – que está longe de nos oferecer um mundo ideal.
Mas interessante é constatar uma espécie de contrapartida do filme do presidiário em um comercial mais recente. Nele, o casal começa a se animar dentro de uma Fiat Strada. Entre beijos e amassos, ela resolve alertá-lo: “Sem proteção, não!” Ele então corre o banco pelos trilhos e procura algo na cabine estendida (sim, é a única picape compacta do mercado com cabine estendida!). Pega então um plástico e forra todo o banco onde a moça está sentada, protegendo-o. O filme termina com um letreiro: “Use sempre camisinha”.
Podia entrar aqui em uma discussão polêmica: será que é função de um comercial de TV, que está anunciando um automóvel, recomendar o uso de preservativo? Bem, já me adianto, pois tenho certeza de que receberia enxurradas de dois tipos de leitor – o que acha um absurdo, pois o comercial não foi feito para isso, e do que acha ótimo, pois nunca é demais recomendar a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. Talvez fosse o caso então de, no filme do presidiário, escrever: “Roubar é crime”.
“Eu adoraria saber o que presidiários ou ex-presidiários achariam do filme `Presidiário´”, afirmou ontem a Interpress Motor o vice-presidente de criação da Leo Burnett, Ruy Lindenberg. Em conversa com este colunista, ele admitiu que “está se perdendo um pouco de bom humor”. Para ele, é preciso delegar ao consumidor a prerrogativa de “ter inteligência, pensar, raciocinar”.
A mensagem “educativa” recomendando o uso de preservativo em um comercial de automóvel soa como uma espécie de concessão. Como se dissessem: você não sabe se cuidar, temos de cuidar de você. O fundo de todas essas questões é um só: o paternalismo ainda impera, e o grau de discernimento da sociedade é tido como tão baixo que ela não seria capaz de distinguir por conta própria o que é ou não razoável em um mundo civilizado.
Por isso um comercial genial é tirado do ar e outro traz uma mensagem que parece um tanto deslocada. Que fique claro: não critico a mensagem nem acho de todo mal que ela apareça. Só fico com o pé atrás com a necessidade desse tipo de recomendação. Preocupa-me a onda do politicamente correto, pois além de toda a patrulha inerente, ela quase sempre indica que as coisas não vão bem.
Ao final da conversa com Lindenberg, prometi incluir na coluna um link para que não só os leitores em geral, mas presidiários e/ou ex-presidiários dêem sua opinião sobre o primeiro filme e todos esses assuntos. Nenhum de nós sabia se presidiários acessam a internet. Mas todos sabemos que eles falam muito ao celular.
è Clique aqui para dar sua opinião sobre essas duas propagandas da Fiat.
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