“Se meus pais não tivessem me dado esse caráter, eu estaria rico hoje.” A frase é de um dos taxistas ouvidos ao final da peça-palestra “A História do Brasil Segundo Ernesto Varela - Como Chegamos Aqui”, de Marcelo Tas, em cartaz no teatro Tucarena até 26 de novembro, em São Paulo. Não é de hoje que se recorre aos taxistas quando a situação está insolúvel. Afinal eles parecem ter as soluções mais simples para todos os males.
Imperdível, a peça mostra Varela (eu era fã desse repórter irreverente e franzino, de óculos com armação vermelha) no início dos anos 80, nas mais diferentes situações. No comício das Diretas, ele entrevista personalidades como Fernando Henrique Cardoso e Lula, para depois profetizar a Valdeci, seu câmera: “Um dia essas pessoas vão ser muito importantes”.
Pois é, do alto da sabedoria popular (puxa, nunca ninguém pensou em falar da burrice popular?), os taxistas têm uma lógica meio estranha. Outro dia peguei um em Curitiba que havia comprado um carro bicombustível. “Quando abasteço com álcool, o carro não anda bem. Então, só uso gasolina, que é para ele deslanchar, correr mais, ficar potente”, disse, revertendo a lógica segundo a qual modelos flex abastecidos com álcool desenvolvem mais potência. Está provado. Mas vai saber...
Anos atrás outro taxista previu a volta da inflação. “Sim, pode escrever. Está faltando troco, isso é sinal de que a inflação vai voltar”, afirmou, com a desenvoltura de um técnico do Tesouro Nacional. Outro discorreu sobre os motivos que levaram Plutão a ser rebaixado a planeta anão. E aquele taxista que apareceu em um programa de TV por ter simplesmente decorado todo o guia de ruas de São Paulo?
De tanto a tal sabedoria popular repetir que o taxista (e olha que só em São Paulo são cerca de 33 mil) é uma espécie de psicólogo, ele parece ter acreditado. Continua então a cumprir sua missão, que vai muito além da de transportar passageiros, pois inclui proporcionar um pouco de conforto a alguém que está com algum problema. Ou, na melhor das hipóteses, permitir saber como pensa alguém que por dever do ofício passa o dia observando os outros.
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