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ARTIGO
AUTOGIRO
“Não clique aqui”
É o que pede anúncio de nova campanha da Fiat na internet; você obedeceria?
por LUÍS PEREZ

DivulgaçãoAlguns leitores podem duvidar, mas a internet fez o caminho inverso ao do patinho feio da fábula. Da grande bolha do final dos anos 90 e início dos 2000, muitos investimentos se mostraram superdimensionados para o tamanho de alguns negócios. Vi sites de automóveis nascendo e morrendo. Talvez por terem sido administrados na base do “vamos ficar ricos, você vai ver uma quantidade de dinheiro que jamais sonhou”. Depois que a bolha da internet estourou, foram relativamente poucos os sites que restaram com conteúdo de qualidade. O excesso de joio em um ambiente de hipercompetição faz com que o trigo tenha de matar um leão por dia. Até porque injeção de dinheiro ajuda, mas não é diretamente proporcional à qualidade do conteúdo, visto por alguns ainda como um "mal necessário". Apesar dos percalços, nada me tira da cabeça que a internet é o futuro da comunicação.

Se esse ex-amigo tivesse vivido a era do início da TV, pelos idos dos anos 50, muito provavelmente ele teria preconizado, com a forma radical de pensar, que o rádio estava com seus dias contados. Da mesma forma, não acredito que a internet decretará o fim de revistas e jornais, mas acho que tudo será mais bem distribuído. Não foi à toa que a Fiat, em convenção comemorativa de seus 50 anos, em Betim (MG), há duas semanas, alardeou que o modelo Brava foi o primeiro comercializado pela internet. A General Motors também reivindica um título no mundo virtual, segundo o qual o Celta foi o primeiro modelo montado pela rede mundial.

Contingências profissionais me obrigaram nos últimos tempos a estudar melhor o comportamento do internauta e, ao mesmo tempo, verificar a eficácia editorial e comercial da internet. É difícil pensar que há pouco mais de dez anos não tínhamos como entrar no site de um fabricante (daqui ou do exterior) e comparar produtos, ver fotos do interior do veículo. Claro que à internet falta tato, falta cheiro. Mas com a progressão geométrica da tecnologia nos últimos anos, alguém tem dúvida de que isso vá existir em um tempo bem menor do que se imagina?

Não adianta clicar. Isto não é um anúncio.


Enquanto isso não acontece, o ser humano é desafiado a criar no mundo virtual. Por demonstrar interesse pessoal no tema, Marina Moraes, diretora de comunicação da Leo Burnett, agência que atende a Fiat, em um gesto de extrema delicadeza e generosidade, me convidou para conhecer a campanha da nova Idea Adventure. Já havia visto o filme e o trailer (este parodia um trailer de longa-metragem), à época do lançamento, no início do mês, em evento em Belo Horizonte (MG). Mas agora conheci toda a campanha, incluindo o hotsite interativo, que permite ao internauta montar um filme a partir de cenas dirigidas por Rodrigo Meirelles, com produção executiva de Fernando Meirelles.

O lançamento do hotsite será feito em duas fases. A primeira destaca os principais pontos do carro, que pode ser montado pelo internauta. Na fase seguinte, será possível montar 16 diferentes filmes a partir de uma série de situações do cotidiano, baseado na idéia: “Não importa qual a sua escolha, uma aventura sempre vai cruzar o seu caminho”. A campanha, que tem como estrela uma iguana gigante que invade a cidade, inclui uma espécie de “você decide” em que o espectador vota por mensagem de texto (gratuita) nos cinemas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Por isso e por uma série de razões, a campanha é uma das mais criativas que já vi nos últimos tempos, no cinema e principalmente na internet.

Sobretudo por lidar com alguns instintos que apenas internautas inveterados são capazes de compreender com precisão. Um dos banners da campanha subverte completamente a lógica das peças publicitárias virtuais, que lutam para levar o navegante a seu site. A determinada altura, o banner traz a inscrição “Não clique aqui”. O que será que a maioria dos internautas fará? Será que vai obedecer à advertência? De uma forma ou de outra, já avisei ao diretor de criação da AgênciaClick, Ricardo Figueira, que gostaria muito saber o resultado desse banner. Você clicaria em um anúncio onde está escrito “Não clique aqui”? Ah, quer saber o que acontece quando clica? De fato, é uma pergunta muito boa...

Publicado em 15/09/2006

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